Sei que vocês não permitirão que Cazuza grave uma versão de O Mundo é Um Moinho.
Um dia defenderei, de forma realmente embasada e nos rigores acadêmicos de praxe, a minha tese cabal. Na minha concepção, Cartola foi no Brasil o único equivalente aos pioneiros do blues do Mississipi. Son House, Charlie Patton, Robert Johnson e outros estão unidos a Angenor de Oliveira por um laço muito mais forte do que se cogita (se é que alguém já levantou essa semelhança). Me falta agora é a pesquisa necessária, portanto apenas chamarei na retórica.
Quando gravei algumas músicas para meu tio norte-americano, me esforcei para tentar explicar que esse é o verdadeiro samba. Ao achar que tudo estava indo por água abaixo, puxei não sei de onde e num inglês sofrível algo do tipo: he is just like those folks who suffered A LOT, drank A LOT and made MUSIC FROM HELL back there in Mississipi. Nesse momento percebi que consegui demonstrar meu ponto de vista mais claramente, e que não era de todo absurdo fazer a comparação.
Cartola, como o pessoal que dava um tempo na colheita do algodão, foi um autodidata sublime. Recentemente li que boa parte do seu treinamento musical se deu em visitas freqüentes à igreja, um dos poucos locais onde um pedreiro poderia escutar música clássica na década de 20.
Além disso, há a evidente semelhança temática. Cronistas de tempos áureos, porém um tanto sofridos, o sambista e os bluesmen variavam dos mais alegres ritmos de celebração da vida para a mais funesta e insuportável fossa. Na verdade, isso não redundava em simples lamúria por saberem lidar como poucos com a melancolia. Essa é uma das únicas explicações para se ter vontade de chorar com uma música chamada Alegria, que acaba sendo uma facada no peito apesar de seu andamento carnavalesco. Son House, que apesar de falar de morte em 90% de suas músicas, conseguia ser alegre e aterrador espancando suas cordas de tripa de bode e berrando feito uma alma condenada.
Correndo o risco de ter dito absolutamente nada e quase fugindo do assunto, seria legal imaginar uma obra parecida com Blues dedicada ao samba pré-histórico. Não me importaria nem um pouco se o Laerte ficasse encarregado disso.



