Valor agregado

Vista do rio Spree, em Berlim

Vista do rio Spree, em Berlim

Viajarei para a Europa novamente. Encontrarei minha esposa por lá no meio do ano. Uma coisa que me incomoda um pouco é a reação da maioria das pessoas. Alemanha? Ui, que chique.

Acho estranho tanta gente associar viagens internacionais a gastos exorbitantes. É uma reação natural, perfeitamente admissível. No entanto, não resiste a uma análise um pouquinho mais ponderada. Sem números, só conceitos e alguns fatos.

Primeiro: algumas vezes é mais caro viajar para o nordeste do Brasil, saindo do Rio Grande do Sul, do que ir a Miami, por exemplo. Faça as cotações. Se você viajar fora de temporada, lá por outubro, ficará surpreso em ver a diferença absurda no preço dos bilhetes. Pode custar a metade do que o mesmo trecho vale em dezembro, por exemplo. Se comprar com uns seis meses de antecedência, então, nem se fala. Isso é algo importante a se considerar quando se vai sair do país.

Segundo: tenho certeza absoluta que 90% das pessoas gastam mais passando férias em Santa Catarina do que eu gastarei em outro continente. Se alugar uma casa em alta temporada, então, nem se fala. Claro, depende-se de hotéis baratos e gentileza alheia para não deixar todas as posses no Velho Mundo. Hospedagem é sempre a fatia mais cara de uma empreitada dessas, por isso ter contatos quentes e indicações prévias pode cortar seus custos dramaticamente.

Numa outra analogia que expus a um amigo, é mais ou menos o seguinte: pode-se gastar 50 reais num boteco fuleiro tomando cerveja podre e comendo porcaria, enquanto se gasta  27 reais num bar chique tomando só Guinness e Eisenbahn. Óbvio, não é a mesma quantidade avassaladora de álcool do primeiro caso, mas é só para ilustrar como às vezes se deixa de fazer algo de antemão porque é “caro”.

Como quase tudo na vida, é uma questão de prioridades. Se você se sente feliz gastando 5000 reais em uma quinzena em Capão da Canoa, ótimo. Só não deixe de fazer coisas que você quer por ranço prévio ou por achar que é coisa de gente milionária. É possível que você esteja cometendo um grande equívoco.

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Avaliação Sunga

Tenho um bilhete manuscrito com o título acima. Inclui também uma data e horário, além de um valor que fecha o texto. Se isso estivesse perdido na mesa de qualquer pessoa, eu certamente teria um colapso de tanto rir.

O papel traz instruções para que eu possa riscar uma das metas de 2009, que é voltar a fazer academia e/ou nadar. Como ainda estou fazendo exames para determinar se meu ombro realmente está esfarelado para as piscinas, começarei apenas com os ferros. De volta a 2002, onde pesava os mesmos 77 quilos, só que com uns 9 a menos de gordura.

Esperança, teu nome é supino.

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Factóides sortidos

Estava dirigindo ontem pela BR-101 que, no trecho entre Terra de Areia e Osório, é uma das estradas mais bonitas que há. Enormes vales cheios de figueiras, rios e lagoas, plantações de banana na encosta de morros cobertos por nuvens e raios esporádicos de sol. Sempre fico feliz quando opto por seguir por ela, porque jamais me decepciono com os contornos da paisagem.

Encostamos no pior restaurante do universo, onde comi um salgado assado de carne totalmente murcho. Como toda parada de viagem, o café era adoçado porque é de beira de estrada, declaração que veio da boca da própria atendente. Gostei da honestidade e nem me incomodei, até porque estavam à venda um boné com a inscrição CHICAGO que trazia uma imagem da estátua da liberdade ilustrada. Mais fantástica ainda era uma sacola azul com os dizeres GRÊMIO CAMPEÃO BRASILEIRO 2005. Ápice do realismo fantástico.

Big-muff.org não existirá mais. Todo mundo deve cair aqui a partir de agora. Mesmo com redirecionamentos automáticos, acho bom atualizar seus favoritos e/ou feeds.

Esse é o novo começo. 2009 promete, vindo de um 2008 absolutamente cheio de novidades. E já começou.

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Estrada

estrada

Acho que tudo que eu gostaria de dizer sobre The Road já foi feito pelo Firpo. Também terminei e imediatamente tive vontade de reler. Não o fiz porque quero digerir a experiência pelos próximos meses, e justamente porque quero deixar os personagens vivendo sem a minha presença pelo maior tempo possível.

Em uma passagem, pai e filho encontram novamente conforto depois de sabe-se lá quantos dias vivendo ao relento. Fugindo de intempéries naturais e de canibais que também tentam continuar sobrevivendo num planeta desolado. Com a imersão na história, não deixa de ser um grande alívio saber que os dois podem, depois de muito tempo, fazer uma refeição de novo. Tomar banho quente. Dormir numa cama.

Esse conforto é sentido na pele, e se torce para que jamais saiam do esconderijo e passem o resto dos seus dias em relativa segurança. Mas como eles, também percebemos que aquilo é ilusório. A qualquer hora alguém pode encontrá-los. E isso significaria morrer encurralado. Com a mesma dor, incentivamos que continuem a fuga, em busca de um litoral que pode nem mesmo existir. Para um futuro incerto e arriscado. Mas para uma tentativa, o que já é muito quando se esvaziam as esperanças.

Não há espaço algum para redenção. Agir certo o quanto for possível. Com compaixão. E continuar andando.

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E o ordenado?

Sempre que alguém perguntar afinal, no que tu trabalha, mesmo?, vou mandar esse artigo. Ver desenvolvedor de interfaces.

Agora é imprimir e colocar uma cópia na carteira.

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Réplica a Agatha Christie e ao Realismo Mágico

Depois das 20 cabeças de carneiro expostas à beira do Guaíba, talvez alguém achasse razoável aparecer uma mãe de santo morta a facadas na Restinga.

Nenhuma ligação entre os dois fatos escabrosos, mas viver em Porto Alegre está cada vez mais proporcionando um experiência única do ponto de vista tragicômico-surreal da coisa. Nem vou mencionar os buracos que se auto-regeneram ad infinitum, porque daí alguém já vai achar que estou inventando.

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Pudim no ar

Quem mora em Porto Alegre já deve estar abismado com a umidade colossal que se abateu por aqui. Neblina, coisas secas aparecendo molhadas, coisas molhadas que jamais secam. É o padrão anual neste pântano-cidade.

Só que existe uma coisa que vem me preocupando bastante: livros. Alguns estão começando a manchar. Outros, mesmo com capa dura, claramente estão com as páginas amassando sozinhas.

Pergunta: alguém sabe e toma medidas preventivas contra umidade em suas bibliotecas? Aqui em casa compramos desumidificadores para colocar nas prateleiras (esses de supermercado), mas não boto muita fé que vençam a batalha sozinhos. Achei algumas recomendações pelo Google (trocar os livros de lugar periodicamente, evitar colocá-los perto demais um do outro, etc), mas gostaria de conhecer mais algumas opiniões por aí.

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Gargalo verde

Cartola

Sei que vocês não permitirão que Cazuza grave uma versão de O Mundo é Um Moinho.

Um dia defenderei, de forma realmente embasada e nos rigores acadêmicos de praxe, a minha tese cabal. Na minha concepção, Cartola foi no Brasil o único equivalente aos pioneiros do blues do Mississipi. Son House, Charlie Patton, Robert Johnson e outros estão unidos a Angenor de Oliveira por um laço muito mais forte do que se cogita (se é que alguém já levantou essa semelhança). Me falta agora é a pesquisa necessária, portanto apenas chamarei na retórica.

Quando gravei algumas músicas para meu tio norte-americano, me esforcei para tentar explicar que esse é o verdadeiro samba. Ao achar que tudo estava indo por água abaixo, puxei não sei de onde e num inglês sofrível algo do tipo: he is just like those folks who suffered A LOT, drank A LOT and made MUSIC FROM HELL back there in Mississipi. Nesse momento percebi que consegui demonstrar meu ponto de vista mais claramente, e que não era de todo absurdo fazer a comparação.

Cartola, como o pessoal que dava um tempo na colheita do algodão, foi um autodidata sublime. Recentemente li que boa parte do seu treinamento musical se deu em visitas freqüentes à igreja, um dos poucos locais onde um pedreiro poderia escutar música clássica na década de 20.

Além disso, há a evidente semelhança temática. Cronistas de tempos áureos, porém um tanto sofridos, o sambista e os bluesmen variavam dos mais alegres ritmos de celebração da vida para a mais funesta e insuportável fossa. Na verdade, isso não redundava em simples lamúria por saberem lidar como poucos com a melancolia. Essa é uma das únicas explicações para se ter vontade de chorar com uma música chamada Alegria, que acaba sendo uma facada no peito apesar de seu andamento carnavalesco. Son House, que apesar de falar de morte em 90% de suas músicas, conseguia ser alegre e aterrador espancando suas cordas de tripa de bode e berrando feito uma alma condenada.

Correndo o risco de ter dito absolutamente nada e quase fugindo do assunto, seria legal imaginar uma obra parecida com Blues dedicada ao samba pré-histórico. Não me importaria nem um pouco se o Laerte ficasse encarregado disso.

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Tarrafa

Gostaria que isso fosse verdade, e que se aplique num futuro muito próximo.

Quanto mais me esforço para ter uma vida wireless, percebo que mais e mais fios vão se intrometendo no processo. De que adianta ter notebook e wi-fi se preciso:

  1. Ligar o computador no carregador a cada duas horas de uso;
  2. Encaixar um cabo + extensor para ligá-lo num microsystem e escutar música com um pouco mais de qualidade
  3. Plugar vários cabos USB para transferir dados para dentro dele?

De forma que, no dia-a-dia,  me vejo cercado de coisas para tropeçar e/ou preencher espaço na mochila.  Para USB, sei que Bluetooth é a saída, mas ainda não tive o prazer de ter  qualquer aparelho compatível com a tecnologia.  Energia realmente me parece o problema mais urgente, e é prioritário que cientistas achem uma forma de liberar a humanidade de ficar encaixando porcarias para realizar operações que deveriam ser básicas.

Não vou considerar qualquer avanço tecnológico enquanto os fios não forem extintos. Todos eles.

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De registros

Existe toda uma corrente que é contra álbuns ao vivo. Os argumentos são sempre os mesmos: a qualidade de som nunca é aquilo tudo; a performance perde impacto quando não se está no local, de corpo presente; as bandas nunca conseguem reproduzir 100% o que fizeram em estúdio.

Entendo essas posições, mas adoro discos ao vivo, especialmente os piratas (bootlegs). Acredito que uma grande banda se revela só no palco, com todas as deficiências, erros e imperfeições que existem nesse âmbito. Um registro de show todo produzido e mixado para parecer de estúdio é um paradoxo lamentável, na medida em que esconde a verdadeira problemática: alguns grupos não conseguem causar impacto fora de biombos de acrílico. Alguns soam exatamente como no disco, o que é tão lamentável quanto.

Se não fossem os registros de shows em áudio e vídeo, provavelmente eu jamais veria essa que é uma das apresentações mais arrebatadoras que já conheci. Alguém pode falar que não é tão bem executada quanto no disco, mas para mim esses cinco minutos são a maior prova que existe perfeição. E ela é toda torta e difícil como deve ser.

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