Bruno Galera

Música para o fim-de-semana

Ska acústico norueguês, letras de protesto em aramaico

O que vem me tirando do sério com cada vez mais intensidade: multiculturalismo de butique. Necessidade de se mostrar um ser globalizado, que transcende nacionalidades, que experimenta de tudo e ama tudo o que é folclórico. Viver um trilhão de experiências sem se aprofundar em nenhuma, fatalmente transformando-se numa borda de catupiry humana: um rolo de massa inchada, com um creme branco que pode ser requeijão, maizena ou qualquer outra coisa terrível que sobrepuja o simples sabor de uma pizza. O importante, afinal, é a borda.

Parece-me um fenômeno tipicamente europeu, francês mais ainda, o de querer participar e entender absolutamente tudo que ocorre no mundo. Essa chacrinha de “uhu-surfar-na-pororoca-dançar-no-pelô-oficina-de-batucada-morei-uma-semana-em-Bornéo-uso-um-chapéu-de-lhama-só-como-orgânico-Manu-Chao” era algo esperado de estrangeiros deslumbrados com o ziriguidum, mas agora virou tônica de terceiro mundo, também. E dê-lhe argentinos de sandália de couro tocando pandeiro no aeroporto e enquanto cantam bossa nova (nenhuma relação, mas fato verídico).

É isso que me impede de ler livros sobre um imigrante lituano que casa com uma amish de Nebraska e perde o pai num atentado em Mumbai. Pode ser um ótimo texto, uma narrativa singular, mas o que se destaca sempre é a tradução soberba de um mundo sem fronteiras. Quando um filme é uma porcaria com um final surpreendente ou dimais, filmado de trás para a frente, coço a cabeça e tento em vão entender como uma trucagem qualquer pode causar tamanha admiração. O mesmo se aplica à literatura e consequentemente à vida, e tentar me convencer que algo deve ser experimentado por causa de elementos que te farão ver o mesmo mundo por outro ângulo fatalmente fracassará.

Melhor disco de 2008

Dig !!! Lazarus Dig !!!

Uma voz no fim da linha

I like gospel because any art form that’s able to express the beauty and power of a force that’s larger than you is a refuge.

Breve, porém reveladora entrevista com M Ward lá no Guardian. Um grande músico que recomendo fortemente, especialmente o fabuloso Transfiguration of Vincent, que entre grandes canções contém um cover acústico da clássica Let’s Dance, do Bowie.

E tem disco novo na parada: Hold Time.

Sobre cinema

Andava afastado dos escritos do Kleber Mendonça Filho. Sempre achei o CinemaScópio o melhor site sobre cinema do Brasil, mas fiquei um longo tempo sem acessar. Agora ele tem um blog que, aparentemente, passou de um espaço temporário sobre Cannes para o local definitivo de publicações de resenhas e reportagens.

A recente cobertura do festival de Berlim foi excelente e, o post sobre o Oscar, impagável. Raro achar um crítico com voz própria e algum sentido no que diz, mesmo que seja para se discordar.

Vá ao Damask

O Damask é um dos meus restaurantes favoritos em Porto Alegre. Janto lá com minha esposa com alguma freqüência, e já apresentei o local para diversos amigos que jamais se decepcionam. Boa comida, um local tranqüilo e com preços excelentes.

Não comi  falafel melhor até hoje. A crocância é fantástica, e o molho de pimenta da casa dá um toque especial ao prato. O kibe cru é outro destaque, dando de relho em qualquer outro restaurante de comida “árabe”.

Se não me engano, todos os outros estabelecimentos daqui servem comida libanesa, enquanto o proprietário do Damask é palestino. Sou totalmente ignorante quanto às diferenças culinárias do oriente médio, então não me arrisco a dizer se ele faz uma receita mais ou menos tradicional do que os outros. Ao menos no que diz respeito aos pratos com nomes em comum, quase sempre tem resultados melhores.

Para iniciantes, sempre indico o prato mix, que vem com uma seleção de pastas, shawerma, falafel e outros quitutes mais.  Pedindo isso e um kibe cru, uma janta a dois estará encaminhada, e o gasto será pouco maior do que comer comer dois xis no Cavanha’s.

Alerta

Se você está chegando aqui pelo domínio big-muff.org e ainda quiser continuar lendo, é necessário atualizar seus favoritos e/ou feeds de RSS para o novo domínio. A fatura do antigo chegou, não pagarei e deve sair do ar a qualquer momento.

Obrigado, tchau.

Através da chuva

RATSO = maior personagem da história do cinema.

RATSO = maior personagem da história do cinema.

Ontem revi Midnight Cowboy. Que puta filme. O mais impressionante ainda é o fato dele ter sido feito há quarenta anos. Eu acho ousado até hoje, imagina no fim da década de 60.

Lembrei que, ao assistir pela primeira vez, num VHS surrado tirado da videoteca da faculdade, achei meio idiota. Hm, um cara vem do interior e vira garoto de programa e o filme acaba. Meses depois, discutindo com outras pessoas, fui pouco a pouco percebendo a intensidade da história, principalmente o vínculo fraterno que une os dois protagonistas.

Tem filmes e livros que até podem ser lidos quando somos mais jovens, mas que certamente precisam de uma revisão mais tarde. Já descobri lixos horrendos que considerei geniais no passado, mas o gosto de uma obra-prima só melhora com a passagem do tempo. Midnight Cowboy é um exemplo perfeito, que certamente apreciarei com prazer redobrado daqui mais uma década.

Música para o fim-de-semana


Björk tapeada

Björk anuncia o fim da Islândia

Björk anuncia o fim da Islândia

Muita gente conhece o lado documentarista do João Moreira Salles. Só que a outra faceta dele, bem menos destacada, é tão ou mais talentosa: o cara é provavelmente um dos melhores escritores que existem nesse país.

Com uma verve jornalística impagável, destaco este artigo brilhante sobre a quebra da Islândia. Não lembro de ter lido recentemente texto de tanta qualidade em qualquer revista, seja online ou offline.