Bruno Galera

Origem

Fracassei miseravelmente e importei textos pra dentro dessa instalação do Wordpress pretensamente nova. Logo, estão disponíveis no arquivo da coluna direita algumas coisas a mais, que começam em 2002. Uôu, se alguém se importar.

Música para o fim-de-semana

Whiskeytown fazendo cover de Gram Parsons. Finesse.

Som noturno

 

Twilight, primeiro álbum do Twilight Singers

Twilight, primeiro álbum do Twilight Singers

Ótima banda, esse Twilight Singers. Projeto de Greg Dulli, ex-Afghan Whigs. Sei que era um tanto cultuado por ser da laia da Sub Pop na década de 90, mas confesso que nunca prestei muita atenção. Especialmente pela postura cigarreira blasé, mas ok, não preciso ver os caras tocando o tempo todo. 

Meio difícil descrever, mas o vocal é bem parecido com dEUS, banda belga também mezzo celebrada na década de 90 (que aliás, possui o belíssimo disco The Ideal Crash). Terrivelmente indie colocar Sub Pop e banda belga num mesmo texto, mas tente relevar. 

O disco confirmado dos caras é o Twilight, mas dá pra tirar uma febre no perfil lá do Last.fm. Achei os vídeos deles tocando ao vivo um tanto diferentes do som de estúdio e meio chatos, na verdade. Naquela pilha arrasei fumando e tocando baixo com copo de ceva na mão, então nem irei recomendar nada do YouTube.

Existe uma aproximação com o grande Mark Lanegan, que sempre é um indício de relevância. A propósito dessa dupla, tocam juntos também sob a alcunha de The Gutter Twins e se apresentarão em São Paulo dia primeiro de julho. Iria muito se por lá me encontrasse, e aqui um alguma coisa ao vivo que vale a pena ser conferida:

Música para o fim-de-semana

Playback, mas pelo menos na Alemanha. Especial para Júlia.

Freio torpedo

Relembrei períodos da minha infância no último sábado ao andar de forma frenética com minha bicicleta pela vizinhança. Saí com os dois pneus murchos rumo ao posto, onde sujei minhas mãos de graxa operando a bomba de ar eletrônica que não faz muito sentido. Devidamente calibrado, comecei a dobrar esquinas aleatórias, descendo numa velocidade um pouco acima do recomendado para se manter a integridade física quando não se está trajando um capacete. Vi homens fortes recolhendo poodles do caminho e mães censurando minha presença um tanto ágil em torno de suas crianças. Fato é que guiei com toda segurança que sempre tive, usando os dois freios de forma equilibrada e nunca, jamais descendo da calçada para ficar mais perto dos carros. A arte de driblar arbustos, animais, pessoas, buracos e pular um meio-fio se mantém intacta, mesmo quando não se pratica há anos. Poucas coisas proporcionam tamanha sensação de liberdade e satisfação quanto uma subida impossível de continuar pedalando. É no que eu gosto de acreditar.

Passando por cidadão

Minha cruzada contra médicos que almoçam de jaleco e estetoscópio começou. Mandei o seguinte e-mail para a administração do Hospital São Lucas na última sexta-feira, 24/04:

Boa tarde,

Gostaria de fazer uma reclamação envolvendo a conduta de funcionários deste hospital.

Freqüentemente, almoço no restaurante Vila Olímpica, no Parque Esportivo da PUC. Em todas as oportunidades, é constrangedor perceber médicos adentrando o recinto trajando seus jalecos e, por incrível que pareça, alguns com seus estetoscópios no pescoço.

O próprio restaurante oferece cabides para os jalecos e emite alertas sobre essa conduta, deixando claro se tratar de uma portaria do Ministério da Saúde. A lei existe, mas a educação e a ética profissional deveriam vir antes à mente destes profissionais que tratam da saúde pública. Instrumentos e vestimentas utilizados na interação e inspeção com pacientes não deveriam sair do espaço físico de consultórios e ou salas de cirurgia.

Como cliente do restaurante e também utilizador dos serviços do hospital São Lucas, gostaria de deixar registrada minha reclamação. Se o hospital não providencia armários para que os médicos deixem seus aparatos de trabalho, que ofereça alternativas e uma campanha de conscientização dos menos educados.

Obrigado,

Bruno Galera

51 xxxx-xxxx

Obviamente, nenhuma resposta até agora. Esperarei até o fim da semana para começar o blitzkrieg. Enchi o saco de tanta demência.

Nosferatu reloaded

Isabelle Adjani tomou um calor do vampiro

Isabelle Adjani tomou um calor do vampiro

Aproveitando o mote do último post, ontem assisti ao remake de Nosferatu feito pelo Herzog em 1979. Além de treinar meu ouvido nesses primeiros passos de aprendizado da língua alemã, pude notar algumas coisas interessantes.

A primeira é que, mesmo sendo personificado por um ator magistral (Klaus Kinski), o conde Orlock (já Drácula nessa versão) não deixa de parecer caricato na versão colorida. A intenção sempre foi fazer um vampiro mais digno de pena do que rodeado de glamour, mas dispensando o preto-e-branco o diretor correu o risco de nos mostrar um personagem menos assustador. É o que acontece, especialmente no primeiro encontro de Jonathan Harker com o monstro: a cena mais aterradora da versão original fica diluída como se fosse apenas mais um take qualquer.

Uma explicação para essa sensação, além da utilização do filme colorido, é o fato de que Klaus Kinski é um anão perto de Max Schreck. Fisicamente, fica impossível ele obter um resultado assim. Umas tomadas de baixo para cima ajudariam, mas ao ficar ao lado do seu antagonista, o vampiro parece apenas um tiozinho mal vestido.

A outra coisa, que salva o filme de ser apenas um remake passo-a-passo, diz respeito à coragem do mesmo diretor em experimentar com cenas absolutamente novas. Como no Drácula de Coppola, aqui há passagens absolutamente perturbadoras que apelam para psicodelia, pura e simplesmente. O banquete rodeado de ratos na cidade entregue à peste ficará grampeado com uma estaca no meu cérebro por anos (procurarei um vídeo ou foto para ilustrar), assim como a abertura.

Decididamente, uma experiência à parte e que deve ser conferida. Ainda estou para ver um filme ruim do Herzog, e ainda não foi esse.

Sombra do vampiro

Bela Lugosi temeria muito.

Bela Lugosi temeria muito.

Apesar de querer muito, ainda não tinha assistido Shadow of the Vampire. Ontem, com uns créditos começando no Telecine Cult, vi John Malkovich seguido de Willem Dafoe e pensei: maior elenco, Jesus Cristo, que diabos é isso? E dei a sorte de pegar do início.

A idéia toda foi rodar um filme sobre um filme. Fosse só isso, a coisa poderia parecer meio narcisista demais, mas o tempero fatal que torna tudo tão interessante e assustador é bem simples: assume-se, em dado momento da projeção, que Max Schreck seja não apenas um ator que se entrega ao seu personagem, mas provavelmente um vampiro de fato. Isso é dito várias vezes em entrelinhas e mais diretamente em confissões do F.W. Murnau interpretado por Malkovich (fora de si, como de praxe).

O efeito é tão impactante que me fez querer ir direto à Wikipedia procurar indícios de coisas sombrias relacionadas à filmagem do Nosferatu original. E nada. Aparentemente, a única motivação de cogitar o sobrenatural é a personificação magistral obtida por Schreck, um ator de relativo renome à época (e não um desconhecido excêntrico como pintado no filme).

Como nos grandes livros, Shadow of the Vampire habita a mente mesmo depois que terminamos de consumi-lo. Vou insistir que alguém realmente deve ter ficado eternamente perturbado por tomar parte numa história tão assustadora. Evocarei histórias de outras produções que quase arruinaram vidas (Apocalypse Now, Aguirre) e negarei argumentos racionais até o fim em nome do horror. Mesmo que seja simplesmente inventado.

Fantasma sai de cena

Exit Ghost

Philip Roth conseguiu de novo. Um livro devastador e belíssimo na mesma medida. Tá custando 25 reais na Cultura, e deve ser lido no original. Faça esse favor.

Anotações do deserto

"Ano do Brasil na França é pra lá".

"Ano do Brasil na França é pra lá".

Mais um filme de quarenta anos atrás que expressa conflitos absolutamente contemporâneos, Lawrence da Arábia valeria só pelas paisagens e a atuação absolutamente fora de série de Peter O’Toole, encarnando com perfeição a bizarrice do personagem com toques de androginia e loucura que impressionam até hoje. A afetação, a sede de sangue adquirida pelos feitos de guerra impensáveis e o mistério da obsessão pelo deserto formam a tríade que conduz o filme muito além do simples registro de um importantíssimo momento histórico.

Mas é um diálogo entre Lawrence e o príncipe Feisal (Anthony Quinn) que não sai mais da minha cabeça e que, eventualmente, serve para baixar a bola de quem tem essa mania de exaltação da miséria alheia (mito do bom selvagem pós-moderno). Quando surgiu no filme, lembrei direto do movimento favela chic, de filósofos celebrando a ruína da sociedade brasileira como mistura perfeita de povos, etc, etc.

Imagino que para certos intelectuais que usam gravata borboleta, ouvir alguém dizendo que deserto é um lixo, nós árabes amamos água e verde por todo o lado seja tão impactante quanto descobrir que, no Brasil, ninguém gosta de morar numa favela.