Video game é vida

por Bruno Galera

Minha memória mais antiga de uma partida de video game remete aos meus 4, 5 anos. Eu, meu pai e meu irmão jogando Odyssey ². Mais precisamente, o famigerado jogo da tartaruga.

O passo seguinte foi um Phantom System. Um genérico do Nintendo Americano que permitia acesso a clássicos como o primeiro e insuperável Contra. Tinha um colega de escola em São Paulo que possuía jogos originais que incluiam esse, Bubble Bobble e Zelda. Nesse já me forçava a entender algum inglês, exercício que me levou mais tarde a frequentar bancas de aeroporto não só para esperar meu pai retornar de viagem, mas para adquirir uma Electronic Gaming Monthly de cinco meses atrás.

contra

Facehuggers e um coração de alien: vitória.

Lembro de colocar o despertador para tocar às 5 da manhã para poder jogar Double Dragon 2 por duas horas antes de ir para a escola. Lembro do dia em que estabeleci o recorde de oito horas seguidas jogando ao tentar terminar Contra sem o código de 30 vidas. Lembro que alguns jogos não faziam absolutamente nenhum sentido e eram praticamente impossíveis: Turtles, Predator e o lendário Iron Sword. Naquela época, era comum levar DOIS ANOS para chegar até o fim de algum jogo ou simplesmente desistir. Não havia acesso a guias, dicas ou códigos mirabolantes com a facilidade que se tem hoje (apesar do código da Konami, eterno).

O Nintendo durou muito tempo, ainda. Mas a transição para os jogos de computador começou com o primeiro PC: um 286 AT com tela colorida, 33Mhz de clock, 512KB de memória RAM e 20MB de disco rígido. Um luxo lá pelo ano de 1990. Com isso, dava para rodar Golden Axe numa lentidão absurda e outros jogos adquiridos com o pirateiro oficial da Vasco da Gama, gentilmente apelidado de O Picareta. Forneceu matéria-prima até o advento do CD, quando alguns jogos começaram a pedir 30 ou mais disquetes e mídia virgem era um troço absolutamente impensável, quanto mais um gravador.

Dom Quixote: não li e dispenso

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Houve uma dupla de jogos com mais profundidade narrativa que posso tranquilamente definir como marcos. O primeiro, evidentemente, foi Secret of Monkey Island 2. Foram meses, anos de imersão na melhor história já criada para qualquer video game. Quem jogou até hoje troca referências no dia-a-dia lembrando diálogos épicos ou passagens absurdas. Marco cultural é pouco, então fica bastante difícil explicar para quem não esteve lá. Alguns citam Pequeno Príncipe, O Apanhador No Campo de Centeio ou Feliz Ano Velho como obras chave para a adolescência. Se eu tivesse que responder um questionário, seria MONKEY DOIS, em CAPS LOCK, para desespero de professores de literatura.

Eu não teria medo disso hoje em dia

Eu não teria medo disso hoje em dia

Alone In The Dark. Pela primeira vez tinha medo profundo de jogar alguma coisa à noite, e pavor absoluto de entrar na biblioteca onde se podiam pegar livros citando O Mito de Chtulhu enquanto se fugia de um monstro desgraçado NO ESCURO. A coisa era realmente encagaçante e foi vergonhosamente apropriada no primeiro jogo da série Resident Evil.

Hoje me pego jogando Guitar Hero na sala e penso nisso tudo. Video game virou para mim muito mais um lazer do que uma experiência religiosa. Mas a carga do passado estará sempre presente e inevitavelmente voltará em textos nostálgicos como esse.