Pelo menos ele nunca caminhou

por Bruno Galera

Aos poucos a corrida vai virando parte inseparável do meu dia-a-dia.

No início, apenas uma alternativa à realidade indesejável que não me permite mais nadar. Meu ombro direito sai do lugar com frequência, não permitindo que eu faça qualquer esforço na piscina.

Fiz uns três meses de esteira e saí às ruas. A preparação foi fundamental, e a compra de um tênis adequado me mostrou a diferença que faz um simples calçado. Mais nenhuma dor ou incômodo que não seja aquela sensação de presença dos músculos que só uma boa sessão de exercícios físicos pode proporcionar.

Na primeira prova que me inscrevi, o objetivo era completar o percurso. Ponto. Agora, em vias de me alistar para meu primeiro percurso de dez quilômetros, consigo perceber o quanto evoluí em pouco mais de seis meses de prática.

É gratificante melhorar tempos, superar uns metros a mais ou perceber que a respiração não é mais a de um desesperado em fuga. Cada treino é completamente diferente, e poder variar os cenários em calçadas, parques ou avenidas bloqueadas faz da corrida de rua uma experiência sempre nova e muito simples.

Se sinto uma agitação, já conheço o sinal: troco de roupa, calço os tênis e saio trotando sem saber muito bem para onde estou indo.  Não existe dúvida ou certeza alguma, só uma necessidade incontornável de dar o maior número de passadas no menor tempo possível.

Um livro do escritor japonês e ultra maratonista Haruki Murakami me incentivou ainda mais a levar a corrida a sério. Aos 33 anos (bem mais tarde do que eu), começou a correr e nunca mais parou. Nessa seleção de artigos curtos, descreve a rotina sob a óptica de um corredor de longa distância, mas também a relação do esporte com sua literatura. A maioria dos críticos abominou a forma e o conteúdo, mas o estilo franco e extremamente direto ecoa como ensinamento para os amadores e profissionais que se aventuram pelas pistas do mundo todo.

Pode soar ridículo, mas o lema publicitário Just Do It se aplica, e muito, a esse universo. Correr é uma necessidade, não precisa de filosofias e nem de um porquê. Esse vazio inevitável só pode gerar magnetismo ou repulsa, mas quem o abraça geralmente não se arrepende.