Primeiras impressoes de Dresden

por Bruno Galera

Insisto em comparar, o tempo todo. Essa é uma mania terrível que tento evitar ao máximo. Filmes, artes plásticas, cidades: sempre tento achar um correspondente ou oposto completo, num exercício inconsciente de tentar me situar. Tentei fazer isso com Dresden desde que cheguei, mas por minha sorte tenho fracassado bastante.

Chutei mentalmente que a cidade devia ter uns 700 mil habitantes. Na verdade, sao um pouco mais de 500 mil, nessa que é a capital da província da Saxônia.

Uma monarquia forte reinou por aqui durante um bom tempo, o que é sentido em todos os prédios históricos absurdamente gigantescos, com seus motivos romanos. É humilhante lembrar de qualquer monumento considerado grande no seu país quando se está na Alemanha. Nem em Londres me lembro de ficar tao oprimido, isso que aqui nao tem um décimo da populacao de uma megalópole do tipo.

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Sobre a relacao habitantes versus cosmopolitismo, alguns dados observados até aqui mostram o quanto é triste comparar. Vindo do aeroporto (umas três vezes maior que o Salgado Filho, numa cidade três vezes menor), comecei a notar o cenário um pouco mais calmo do que lembrava quando estive por aqui em 2007.  Pensei maldicao, se quiser ter acesso a X e Y, serei obrigado a  ir a Berlim. Nao só o transporte é igual ou até superior (trem, bonde, ônibus, táxi), mas a oferta de restaurantes, lojas e tecnologia tem exatamente o mesmo nível impressionante. Um exemplo claro é a Saturn daqui, que só com eletrônicos é provavelmente o triplo de uma FNAC da vida. Gastei uma hora ontem só para olhar por cima meia dúzia de departamentos.

Na parte da calmaria, é covardia perceber que nenhum carro buzina. Nunca. E Dresden tem um transporte público notável  (24 euros um passe semanal  com direito a tudo, quantas vezes quiser). Mesmo assim, há  muitos carros, mas ninguém toca o horror. Ouvi um que outro magal passando, mas provavelmente era um dono de um Kebab que tem uma Lamborghini. Entendo.

Agora no verao,  tem anoitecido lá pelas 22h. Saímos ontem para sentar na beira do Elbe e tomar umas cervejas. Centenas de pessoas,  de todas as idades, atiradas em cima da grama fazendo o mesmo. Com câmeras caríssimas, bicicletas e tudo mais. O fato disso acontecer numa segunda-feira qualquer e, de absolutamente ninguém ter preocupacao alguma com sua integridade física por estar num descampado escuro, me deixa meio triste, até. Se eu estivesse na  mesma situacao perto da Redencao, provavelmente eu já me consideraria morto. E quando aqui se acha um lugar deserto que eventualmente poderia causar algum  desconforto, eis  que surge um velho de 90 anos usando duas bengalas esperando o bonde do outro lado, sem qualquer vestigio de estar sendo rondado por qualquer tipo de perigo. A tranquilidade oprime, ninguém se importa com nada.

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Nao me iludo que nada de terrível acontece por aqui. Há uns dias, um cara matou com 18 facadas uma mulher dentro dum tribunal. E essa regiao é bem conhecida por problemas com neonazistas e todo tipo de tensao etnica. Uma bomba pode explodir numa estacao e matar uma galera. Mas a chance disso acontecer é ínfima comparada  à possibilidade de te assaltarem com uma arma na cabeca em plena luz do dia em Porto Alegre (acho que isso já aconteceu com uns 15 amigos meus, fora conhecidos). Terror tem em toda parte, mas é  bem diferente quando é uma rotina que  precisamos integrar aos nossos dias.

Para terminar este relato de forma mais amena,  declaro que nada é mais genial do que o pfand cobrado em estabelecimentos de toda a Alemanha. Quer tomar uma cerveja num Biergarten ou supermercado? Pague o valor do copo, também. Isso te dá o direito de beber num recipiente decente e levá-lo para onde bem entender. Quer o dinheiro de volta? Coloque o copo no balcao e era isso. Coisas simples como essa têm de ser IMPOSTAS para funcionar, e nao debatidas com a populacao durante 16 anos. Algum preguicoso  ou mau caráter sempre vai achar que está tendo sua liberdade restringida, mas sao de pequenas leis e cedendo-se a favor dos outros que se faz uma sociedade um pouco mais educada.