Sombra do vampiro

por Bruno Galera

Bela Lugosi temeria muito.

Bela Lugosi temeria muito.

Apesar de querer muito, ainda não tinha assistido Shadow of the Vampire. Ontem, com uns créditos começando no Telecine Cult, vi John Malkovich seguido de Willem Dafoe e pensei: maior elenco, Jesus Cristo, que diabos é isso? E dei a sorte de pegar do início.

A idéia toda foi rodar um filme sobre um filme. Fosse só isso, a coisa poderia parecer meio narcisista demais, mas o tempero fatal que torna tudo tão interessante e assustador é bem simples: assume-se, em dado momento da projeção, que Max Schreck seja não apenas um ator que se entrega ao seu personagem, mas provavelmente um vampiro de fato. Isso é dito várias vezes em entrelinhas e mais diretamente em confissões do F.W. Murnau interpretado por Malkovich (fora de si, como de praxe).

O efeito é tão impactante que me fez querer ir direto à Wikipedia procurar indícios de coisas sombrias relacionadas à filmagem do Nosferatu original. E nada. Aparentemente, a única motivação de cogitar o sobrenatural é a personificação magistral obtida por Schreck, um ator de relativo renome à época (e não um desconhecido excêntrico como pintado no filme).

Como nos grandes livros, Shadow of the Vampire habita a mente mesmo depois que terminamos de consumi-lo. Vou insistir que alguém realmente deve ter ficado eternamente perturbado por tomar parte numa história tão assustadora. Evocarei histórias de outras produções que quase arruinaram vidas (Apocalypse Now, Aguirre) e negarei argumentos racionais até o fim em nome do horror. Mesmo que seja simplesmente inventado.