Anotações do deserto
por Bruno Galera

"Ano do Brasil na França é pra lá".
Mais um filme de quarenta anos atrás que expressa conflitos absolutamente contemporâneos, Lawrence da Arábia valeria só pelas paisagens e a atuação absolutamente fora de série de Peter O’Toole, encarnando com perfeição a bizarrice do personagem com toques de androginia e loucura que impressionam até hoje. A afetação, a sede de sangue adquirida pelos feitos de guerra impensáveis e o mistério da obsessão pelo deserto formam a tríade que conduz o filme muito além do simples registro de um importantíssimo momento histórico.
Mas é um diálogo entre Lawrence e o príncipe Feisal (Anthony Quinn) que não sai mais da minha cabeça e que, eventualmente, serve para baixar a bola de quem tem essa mania de exaltação da miséria alheia (mito do bom selvagem pós-moderno). Quando surgiu no filme, lembrei direto do movimento favela chic, de filósofos celebrando a ruína da sociedade brasileira como mistura perfeita de povos, etc, etc.
Imagino que para certos intelectuais que usam gravata borboleta, ouvir alguém dizendo que deserto é um lixo, nós árabes amamos água e verde por todo o lado seja tão impactante quanto descobrir que, no Brasil, ninguém gosta de morar numa favela.