Estou lendo um livro sobre arquitetura da informação. É um resumão básico do tema, e tem sido uma introdução aceitável.
O que está me incomodando, na verdade, é a forma como é escrito. Não é uma dissertação de mestrado, é para ser acessível a todo tipo de leigo, etc. Mas eu não consigo deixar passar incólume um “tipo assim” no início de vários parágrafos. Até mesmo um “show de bola” foi encontrado, e é impossível não lembrar que foi aquele locutor esportivo careca e risonho quem cunhou essa expressão. Um da Bandeirantes, se não me engano. Fico pensando mais tempo na cara lustrosa dele do que no fato de alguns dados estatísticos apresentados serem altamente questionáveis, se não completamente descartáveis.
Essa questão da linguagem é um problema e tanto. Exigir gramática impecável o tempo todo é inviável, dado que absolutamente todo mundo incorre em erros. É perfeitamente normal. Mas existe alguma coisa no estilo que não me deixa relaxar diante do exemplo acima. Não sei se as pessoas estão tomando as aulas de lingüística como teoria da libertação total das regras. “O importante é a mensagem ser transmitida“. É o principal, mas não é assim tão simplório.
Numa aula de economia, um professor entregou à turma dois textos para estudar para uma prova. Ambos falavam do mesmo assunto, tinham praticamente o mesmo enfoque. Um era do Manuel Castells, e era absolutamente claro e esforçado em ir direto ao ponto. Já o outro… bem, devo apenas dizer que era impossível ler mais de uma página. 5 citações bibliográficas por frase, termos absolutamente herméticos e mais palavras em inglês do que um acadêmico que trabalha na Universidade da Califórnia (o próprio Castells). Não sei se doutores brasileiros se orgulham da complexidade dos seus artigos na mesma medida em que alguns juristas resgatam palavras do século XVIII para redigir sentenças. O que me incomoda é perceber que é possível falar sobre a mesma coisa de forma simples, o que não quer dizer rasteira.
Parece-me justamente uma questão de estilo correto para o momento adequado. Show de bola numa conversa informal me incomoda muito menos do que quando empregado num livro. Talvez separar as situações já seja um indício de que estou equivocado e um tanto anacrônico.
Uma defesa muito condicional dos termos em inglês: algumas vezes não existe, ou não são usados, termos em português. Por mais que eu queira que “stakeholder” seja traduzido por “partes interessadas”, o fato é que todo mundo usa “stakeholder” ou até “estêique”. Então em inglês é melhor.
Ergodesign e arquitetura de informação?
hummm, “estêique”…
:-P~~
Cisco, vou te passar uma hora o texto de que estou falando. Não é o caso de usar stakeholder, scanner ou commodities. É UM BILHÃO DE TERMOS EM INGLÊS QUE NÃO FAZEM O MENOR SENTIDO.
Como eu disse, o Manuel Castells é da UC e não usou 1/10 de palavras em itálico que o cara brasileiro despejou. O texto era simplesmente incompreensível. Tipo Barthes aplicado à economia, só que pior.
show de bola o post.
abração!
ah, e sobre o “stakeholder”, geralmente o sentido usado é o de “acionista”.
try it.
Dante, freqüentemente stakeholders não são stockholders. Acionista pode ser um termo ambíguo nesse caso.
Bruno: quero ver mesmo. Deve ser divertido.
cisco, tens razão.
me restringi aos temas organizacionais com os quais costumo lidar nas traduções.