Uma inteira

por Bruno Galera

Fiz as pazes com o cinema, depois de um bom período de afastamento. Nas últimas duas semanas, vi mais filmes do que nos dois meses anteriores. Algumas rápidas impressões:

Babel: Iñarritu parece estar com a leve impressão de dominar todos os fenômenos do universo. Desde Amores Perros, o que era um temperinho barato de teoria do caos começou a virar uma obsessão um tanto patológica. É claro que se pode trabalhar num nível metafórico bastante simples para explicar a correlação dos seus personagens. Mas a impressão que me deixa é que ele não vai sossegar enquanto não mostrar que um espirro seu pode afogar 82 crianças na Malásia. E ele quer que você chore muito quando descobrir isso.

No mais, a atuação do Brad Pitt é constrangedora. Certamente é o pior desempenho dele em todos os tempos. Para salvar a bomba de auto-comiseração, a mama mexicana consegue transmitir um mínimo de naturalidade. As crianças são bastante impressionantes, também. Outro mérito é a trama japonesa não parecer com um rascunho hollywoodeano de cinema japonês. Daria um ótimo filme, isoladamente.

Pequena Miss Sunshine: personagens cativantes num estilo para ensinar ao Oscar. Não é preciso ser uma figura histórica ou babar para ser interessante. Diálogos afiadíssimos, um velho em chamas 100% da projeção e uma seqüência final de catarse coletiva. Fora isso, é esteticamente formidável, o que não é surpresa vindo de um casal diretor de clipes impressionantes.

Apocalypto: Predador. O Último dos Moicanos. Moral e mitos cristãos. Um rosto sendo mastigado por uma pantera. Em close.

Só Deus Sabe: nas mãos de um diretor brasileiro, provavelmente seria um fiasco. No entanto, esse misto de road movie com romance de rito de passagem se sai bastante bem com a direção de Carlos Bolado (mais um mexicano coordenando). Algumas paisagens excelentes do México e nenhuma atuação constrangedora. A trilha sonora é excelente, mesclando Interpol com cânticos de umbanda. Se puxaram na seleção.

O Labirinto do Fauno: acho que terei que concordar com o Daniel. É um dos filmes mais tristes que vi na minha vida. Saí muito perturbado da sessão. É muito cruel e ao mesmo tempo insuportavelmente belo. A fantasia como escapismo para situações terríveis aniquila na mesma medida em que estimula. Essa perplexidade não deveria ser permitida.