Seja um idiota decente

The do-gooders call this “enabling” and in their simple, black-and-white world this can do the poor street addict nothing but harm. I’ll agree it does him little good. But in the moment it took me to fish a dollar from my pocket, press it into his dirty hand and wish him luck, I connected with him, one human being to another.

Tony Long reflete um pouco sobre a falta de humanidade nos dias de hoje. O assunto pode parecer tragicamente piegas, mas não tanto quando lembramos que hoje em dia solidariedade e empatia já viraram commodities.

Concordo bastante com a opinião dele, e também me vejo assaltado pelo dilema quase diariamente. Sei que dar esmolas pode incentivar moradores de rua a continuar nessa condição para sempre. Tenho evitado ao máximo estender uma moeda que seja, mas às vezes fica difícil.

Assim como Long, acho que as pessoas no geral merecem que olhemos nos olhos delas. Às vezes viro a cara para casos que me irritam mais (como mulheres perfeitamente saudáveis com criança de colo batendo ponto por esmola na frente de bancos ou restaurantes).  Só que é impossível não me sentir mal por horas subseqüentes.

Com a gurizada que fica na rua pedindo grana para comprar leite ou voltar para casa, sempre engato uma conversa. É muito fácil arrancar deles que afinal querem mesmo é descolar um tubo de loló, para continuar dormindo na calçada. Existem N motivos para isso, não vem ao caso. Só acho melhor ser mais malandro que eles e negar o dinheiro depois de contradizê-los do que mandá-los se virarem pura e simplesmente. Isso é compaixão irada, e não uma agressão sobre uma fragilidade. Há grande diferença.

Em algumas ocasiões, o jeito como o cara me aborda ou simplesmente o semblante dele automaticamente me dão uma sensação de conforto. Ele pode ser o cara mais fodido do mundo, mas sempre consegue se descolar disso. É alegre, mesmo que não sorria. Não ameaça ou constrange expondo suas fraquezas. E se a forma de selar nosso entendimento for usando meia dúzia de moedas, que seja. Aquele acordo de 30 segundos feito num sinal de trânsito vai durar até o fim dos tempos.

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0 Responses to Seja um idiota decente

  1. Klo says:

    Teve um seriado do Neil Gaiman chamado Neverwhere. Deve virar filme inclusive.

    É a historia de um cara que descobre que essas pessoas sem rosto que vivem pelas ruas, de tanto serem ignoradas, ficam invisíveis de verdade e acabam fazendo parte de uma comunidade underground, numa espécie de outro plano. Ao se envolver com essas pessoas, ele mesmo começa a ficar invisível tbm.

    É bem bacana. Dá pra achar em torrents por aí. Vale a pena.

  2. edson says:

    ele vai se lembrar de ti pra sempre.

  3. ederson says:

    Nos últimos tempos, o número de pessoas pedindo dinheiro aqui pelo centro aumentou consideravelmente. Não sei se não dar nada pra eles os desmotiva a ficar na rua, ou se os enche de ódio contra os burgueses egoístas, mas sei que geralmente não dou nada.

    Principalmente quando é para alguém que surge de repente pedindo um real (não é mais nem 10 centavos), como se isso fosse minha obrigação, ou como se dar dinheiro automaticamente para qualquer estranho que me pede fosse algo natural.

    Não dou nada, mas não ignoro. Como você disse, olhar e falar com as pessoas é importante. Mesmo que seja pra dizer não, acho que mostrar que eu os vi, escutei e faço parte também do mundo deles é fundamental.

    Contribuo com o que posso em casos especiais, como alguém que precisa voltar pra casa e não tem a grana da passagem, alguém que diga algo decente que não exalte sua miserável condição, crianças esforçadas ou velhinhas que lembrem minha vó (e são muitas).

  4. vag says:

    mulheres sujas com bebês no colo, como tem uma na esquina da 24 com a dr timoteo. essas são foda. porra, tu já mora na rua, ainda quer ter filho. sacanagem.

    quanto a meninos de rua, tenho empatia por eles. raramente dou dinheiro. às vezes dou comida, às vezes roupa, às vezes converso. uma vez fiquei 1 hora e meia conversando com uma duplinha. deixei meu ônibus passar umas 10 vezes, mesmo sendo10 e meia da noite. eles fizeram autoretratos de planos para o futuro. os dois se desenharam de gravata.

  5. Júlia says:

    Tu não faz parte do mundo deles e eles não fazem parte do teu mundo. São mundos diferentes. Olhar para um mendigo só para não se sentir culpado é horrível.

    Em relação aos filhos dá pra dizer que não necessariamente elas os querem ter. Acredito que na maioria das vezes não querem – o que justifica o altíssimo número de abandono. Por outro lado, ter filhos é um direito que elas têm e, por pior que possa parecer, quando se tem alguém que depende de ti, faz com que tu te sintas importante. Na pior das hipóteses, como deve ser o caso dessa mulher da 24, ter uma criança no colo deve aumentar muito o valor resultante das esmolas.

  6. Jose Antonio says:

    Bruno,

    experimenta, ao invés de oferecer uma esmola, oferecer um TRABALHO. Diz que paga R$ xx,xx, para ele capinar um pátio, por exemplo, e vê o resultado.
    NENHUM DELES vai querer ( eu JÁ FIZ ISSO algumas vezes ).
    Eles querem é continuar na vidinha mansa de pedir ( pq é mais fácil ) ao invés de TRABALHAR, como mortais comuns.
    Um pedinte de sinaleira tira, em média, R$ 30,00/dia. Faça as contas e veja se é vantagem para ele ir trabalhar, ter disciplina, acordar cedo, aguentar patrão, etc…
    De mim eles não arrancam um mísero centavo qualquer.

  7. henrique says:

    eu ouvi de uma caixa de padaria da erico que ela troca moedas de mendigos por notas de 20 reais toda hora.

  8. Antenor says:

    BENCKE alertou que o vendedor de raspadinhas lá do centro “TEM MUITA GRANA”. Ainda não sei em quem acreditar…

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