Venho acompanhando com certa curiosidade a discussão em torno da criação de cursos superiores para formar escritores. O que tem dado mais pano para manga é o da Unisinos, coordenado pelo poeta Fabrício Carpinejar.
Alguns artigos foram suficientes para me encher do mais profundo horror. Quase todos os argumentos são recheados de romantismo comunista de dar dó ou conservadorismo precoce não menos lamentável.
Com a última edição da Aplauso chegando às minhas mãos justamente com o assunto na capa, resolvi tentar uma última incursão. Se fosse mais um material lamentável, eu iria largar de mão. Para minha sorte, a matéria saiu acima da média, ouvindo todos os lados e buscando o cerne da questão: qual o problema de existir um curso para formar escritores?
Começo pelos defeitos, que estão em menor número no texto do Fábio Prikladnicki. Mais exatamente, a pior parte está logo no parágrafo de abertura, com piadinhas absolutamente dispensáveis e algum preconceito que não combina com o que está nas outras páginas (grifos e caps lock meus):
O caminho para se tornar um escritor é tortuoso e cheio de mistérios. Seria bem mais fácil se existisse simplesmente um vestibular para isso, certo? CERTÍSSIMO. A julgar por duas iniciativas no Rio Grande do Sul, essa realidade nunca esteve tao próxima dos aspirantes a Machado de Assis (…)
É provável que eu não tenha pegado alguma ironia, mas isso me passou uma opinião totalmente dispensável e que faz pouco caso sobre o assunto que a própria matéria aborda melhor mais adiante.
O primeiro e bem-vindo acerto, que até agora não tinha visto outros textos sequer tocando, é bastante simples: faculdade de artes. Até agora só tinha deparado com coisas como “será possível formar escritores como se forma um engenheiro ou médico”? Esse argumento é fraco, porque só considera formações com áreas de atuação bem definidas como comparativo. Além disso, sob essa óptica, dá para questionar facilmente a existência de 90% da área de humanas.
A apresentação da Unisinos dá mais algum embasamento para a discussão:
Com dois anos e meio de duração, o objetivo do curso é formar escritores e agentes literários empreendedorese inovadores, com domínio das técnicas de linguagem e mídia, além de uma sólida formação intelectual para interpretar o mundo, a tradição e a sociedade. O escritor formado na Unisinos terá capacidade para criar, formular livros e mediar entre diferentes públicos, planejar negócios e desenvolver produtos nas diversas áreas do mercado editorial e do cenário cultural.
Fora o estilo marqueteiro já bastante disseminado, a ementa não diz nada demais. Serão oferecidas técnicas para o aluno ser escritor. Só que alguns enxergam nisso um plano malévolo da universidade em querer corromper a pureza do ofício. E mais: acham que um curso de dois anos e meio está vendendo que quem sair diplomado vai automaticante lançar um best-seller e, quiçá, entrar para a Academia Brasileira de Letras. Só posso creditar isso a obscurantismo, pedantismo e paranóia desvairada em níveis jamais expressados pelos cadernos culturais país afora.
Para exemplificar essa visão, duas declarações do José Castello dão o tom (grifos meus, de novo):
Essa é mais uma ilusão criada em torno da expansão maluca na universidade brasileira desde a privatização levada a cabo pelo governo Fernando Henrique.
Jesus Cristo, só faltou ele atribuir culpa ao FMI. Mas lembrou de algumas técnicas da Santa Inquisição e também conseguiu atribuir um caráter supra-divino à literatura:
A literatura, mais do que as outras artes, trabalha com a palavra pura e o pensamento puro. O escritor não precisa de um pincel, nem de um violino [sim, bando de desqualificados, esses pintores e músicos]. Você tem de ter atributos que não se ensina. Tem de ter imaginação, por exemplo.
Até onde eu saiba, qualquer ofício a que se dedica precisa não só duma porcaria de diploma, mas de talento e conhecimentos que não se ganha na universidade. Todo mundo necessita de técnica e teoria, sejam eles obtidos em aula ou qualquer outro lugar. Como Hemingway, que abusava da prática jornalística na sua ficção, e era um editor obsessivo com seu próprio material. Ninguém vai ser como ele apenas por freqüentar uma faculdade, mas alguém pode ser tão tolo ao ponto de dizer que essa condição vedaria a chance de surgir um escritor de verdade?
Poderia elencar diversos outros fatores: universidades como centros de treinamento, ao invés de locais para pesquisa e construção de conhecimento. É uma realidade que está cada vez mais solidificada (culpa do imperialismo e do George Soros, claro), seja de forma escancarada ou não, e parece não chocar mais ninguém. Ao contrário, pouca gente estranha, e ainda por cima é cada vez maior o incentivo para que toda a sociedade (qualificada ou não) integre quadros que sabidamente não são destinados a quem não quer (ou não precisa) estudar.
Mas isso tudo existe, inclusive as faculdades de comunicação. E ninguém questiona que elas formem comunicadores, o que é muito mais assustador.
Pingback: Filisteu » Blog Archive » Bacharelado em Ficção
Muito bom, cara. Ainda não vi ninguém tratar do tema com alguma decência.
Pingback: idoso :: Escritores na banca :: August :: 2006
Nessa matéria da Aplauso tem umas declarações minhas totalmente fora de contexto. Não fiquei muito feliz com isso.
Aqui em Londres a maioria das faculdades de Humanas dao a possibilidade de uma ou duas cadeiras de Creative Writing (Creditos extras ou um certificado separado, menor que um diploma). A ideia e’ estudar tecnicas diferentes, estimular a producao de contos, novelas curtas e pecas de teatro, seguido de discussao em classe analisando o uso das tecnicas vistas e valor geral da obra. Nao me parece nada de errado.
A grande diferenca e’ que aqui ninguem precisa de diploma pra maioria das profissoes, entao e’ menos uma questao de se “formar escritor” e mais de exercitar algum talento que pode ser util direta ou indiretamente.
Diploma de escritor, no Brasil? Parece mais suicidio financeiro do que ser jornalista…
engraçado que das oficinas de literatura ninguém reclama tanto.
enfim, concordo em gênero, número e grau com tua avaliação do assunto. não sei por que não deixam a as universidades e quem quiser fazer o curso em paz.
o josé castello é aquele mesmo que andou perorando contra jovens que publicam textos literários, ou estou enganado? baita imbecil.
No final das contas, isso é tudo reclamação de rent-seeker. Reeeeeeeeeeeeent-seekers. Agora, com vossa licença, vou gritar com uma nuvem.
é bom saber que o curso vai oferecer “uma sólida formação intelectual para interpretar o mundo, a tradição e a sociedade”.
corra, lola, corra.
o castello é o mesmo que leciona oficina de criação literária por 70 pila ao mês aqui em curitiba.
Sem avaliar méritos ou não, há uma chance grande dessa graduação se tornar curso para a 3.a idade em dois tempos.
“Técnicas e Ofícios em Fotografia Química”. “Mestrado em Manufatura Pictórica de Panos-de-Prato”. “Formação de Escritores e Agentes Literários”.
A idéia de um curso mais ou menos profissional para agentes literários – em si – não me parece má. O LA Assis Brasil era um entusiasta da necessidade da profissão, fim dos anos 80. Foi a primeira vez que ouvi o termo no Brasil, inclusive.
realmente, acho que o mais interessante do curso será justamente essa parte de formação de agentes literários. ainda se apresenta como uma incógnita pra mim, mas parece uma boa idéia, dependendo de como for conduzida.
e sobre “uma sólida formação intelectual para interpretar o mundo, a tradição e a sociedade”, eu tive isso quando fazia judô lá no pallotti, em 1980.
Marcia: vejamos os objetivos do curso de jornalismo da UFRGS, tirados do site da Fabico:
“O Currículo do Curso de Jornalismo tem por objetivo a formação de um profissional de Comunicação consciente da realidade em que vive, conhecedor da área de comunicação teórica, técnica e prática e apto a atuar, utilizando o seu potencial criador em benefício da sociedade de forma crítica.”
Totalmente demente. Mas a gente sabe que nada disso acontece na prática só por causa de um textinho messiânico. Não há por que correr.
“Poderia elencar diversos outros fatores: universidades como centros de treinamento, ao invés de locais para pesquisa e construção de conhecimento. É uma realidade que está cada vez mais solidificada (culpa do imperialismo e do George Soros, claro),”
Olá.
Acho que está ai o ponto. Há muito tempo o ensino superior virou uma piada – ou uma piada em relação ao que se tinha idéia como superior – e não que eu ache de não deva ser uma piada. Observa-se uma guerra contra a expansão de faculdades (Direito, Medicina…), mas não se imagina lutar contra a proliferação de cursos, cada vez mais divididos, especializados e de atuação imediata. É uma questão de cursotecnicozação do ensino superior. É como se metaforicamente a sociedade solicitasse uma determinada função e encarregasse as instituições superiores da formação dessa gente. Não vejo motivo para a criação do curso de Publicidade, Jornalismo, Relações Públicas, Escritor etc., basta o curso de Letras ou Filosofia. Não imagino como uma pessoa com formação em Letras e Filosofia poderia se sentir intimidada numa redação de jornal ou agência de publicidade.
Isso serve para Filosofia e Sociologia… Ouvi uma lição de moral de um professor da UFRJ que trabalhava para o MEC sobre a banalidade de cursos superiores que preparam o aluno simplesmente para o mercado. Segundo ele, a faculdade tradicional não prepararia para o mercado atual, mas, antes e principalmente em tese, prepararia para todos os mercados, preparando um sujeito com conhecimentos superiores, e não necessariamente alguém que possa participar dos concursos da CEEE. É um ponto, e contrário ao curso expresso. Porém isso exigiria o ensino de coisas consideravelmente imutáveis. Só que essas coisas imutáveis (ou tidas como tal) são proibidas nas faculdades atuais.
Num primeiro momento o que se chama ‘esquerda’, e aquele reitor era, pode estar correta. Muitos deles acreditam que a multiplicação de cursos é uma criação in[util do mercado. E é. É um pedantismo até saudável. Porém há uma contradição, coisa óbvia quando se vê pessoas de esquerda defendendo a tradição do pensamento, já que são eles os primeiros na defesa de cursos que ‘questionam’, ‘geram rupturas’ e ‘inventam tudo de novo’. Poderia lembrar que ‘idéias têm conseqüências’, mas isso é nome de livro…
Quando essa invenção de novos cursos nasce numa instituição privada, não passa de marketing. E é verdade. Mas quando as invenções brotam da faculdade pública, é progresso, é uma revolução positiva (ou positivista). Falam besteira ao criticarem a criação do curso por ser capricho mercadológico. Ora essa, a literatura moderna (não modernista) é um enorme e bizarro capricho do mercado pós-gutenberg: a hipertrofia de autores, a maioria deles no ostracismo antes de vingar, não analogiza, no mercado, o que acontece com o crescimento e multiplicação dos cursos Engenharia da Alimentação, Terapia Ocupacional, Nutrição e tantos outros que, entre nós, gozam de tanto conhecimento e reconhecimento quanto o grande autor desconhecido Ibrahim Selafream? Se a movimentação da sociedade gera a necessidade de um curso esdrúxulo como este, o que dizer das inúmeras correntes, escolas e estilos literários, criados de forma tão fútil quanto qualquer outra coisa moderna filha direta de um gadget de Gutemberg? A vulgarização (não no sentido moral) dos cursos é a versão acadêmica da vulgarização do livro moderno. Da crítica à massificação disso ou daquilo eu não tomo parte, dado que sou tão massa quanto o mais massa dos simplórios. Mas nananinanão, escolher que tipo de massificação é bacana é uma atitude não burra, mas inútil.
A Unisinos tenta, com essa história do tino comercial e inovação mercadológica aliados à “sólida formação intelectual para interpretar o mundo, a tradição e a sociedade”, o mesmo que tenta a VW com o FOX: grande para quem está dentro, pequeno para quem está fora. A promessa de um equilíbrio entre dois mundos antagônicos não vinga tanto quanto não vingou o time equilibrado do professor Parreira e seus 4 atacantes ou ainda experimentar jogar água fervente sobre uma garrafa de vidro com água gelada – e, no caso, somos o vidro e a experiência não seria das melhores. E em 2 anos e 1/2 o sujeito interpretará o mundo, a tradição e a sociedade, e ainda leva a capacidade de empreender. Mas só para os 200 primeiros que ligarem agora. Mas isso já foi oportunamente ampliado por você para todos os cursos, mostrando que adescrição do curso mais é uma pretensão megalomaníaca típica dos coordenadores do curso do que propriamente um erro desse curso solito. Mas veja que as linguagens de um slogan e de um texto sobre um curso superior não mudam muito.
O caminho da Unisinos, quando cria esse curso, é fazer uma subcategoria do curso de Letras, a de “fazedores de livros”, o aspecto último da linguagem, capaz de criar todo um fetiche sobre o autor, o “cara que escreveu o livro”; e fazedores de livro que podem, de vez em quando, escrevê-los também – escrever as histórias, digo. Nada contra, mas é como uma subcategoria do curso de Publicidade, a de “fazedores de Outdoor”, ou de “Criadores de Banners”. Bom, Outdoor é só um dos vários meios pelo qual a publicidade pode ser utilizada. O mesmo serviria em relação ao curso de Letras e Livro. Mas se você disser para um professor de literatura que o Modernismo está para o Romantismo como o curso de escritor está para o curso de Letras ele te dá um tiro no joelho.
Um abraço.
Seu texto é absolutamente correto. Além de ser perfeito e hipnotizante! Comecei a ler e não conseguia parar. Você já é escritor? O que tem publicado? Bom, sobre o tópico, entendo que ensino nunca é demais. Espero somente que a qualidade desta faculdade em questão seja boa (que não seja realmente só mais caça-níqueis). Mas a possibilidade de aperfeiçoamento sempre deve ser bem vinda. Talento, querido, isso é nato! Não se aprende nunca! No seu caso, talento, é fato! Parabéns e abraços. (PS – Cheguei por aqui via “Depósito de Neuras”)
‘Paranóia demente’ definiu perfeitamente (e rimou).
Alguém vai obrigar as pessoas a fazerem tal curso?
Alguém vai deixar de comprar livros de escritores que não forem formados na academia?
Alguém será impedido de escrever e publicar se não formado?
Ainda se fosse dinheiro público, até poderia haver alguma discussão, vá lá, mas na unisinos!
Não consegui ainda formar uma opinião sobre até quanto o curso é válido. Mas uma questão é fundamental: assim como quem não gosta de pintar não vai fazer artes plásticas, quem não gosta de escrever…, etc.
Escrever se aperfeiçoa escrevendo, conheço pessoas que têm boas idéias e não sabem colocar no papel. Neste ponto é interessante um curso com técnicas de construção de texto. No frigir dos ovos, o joio será separado e pode até acontecer de surgirem bons escritores do curso.
Pode ser interessante também em termos de contatos, se a universidade promover encontros com escritores e, fundamental, bons professores.
gostei muito!!!!!não sabia de muita coisa….sobre Mario Quintana