Saindo do trabalho ali pelas 19:30, fecho o portão às minhas costas para escutar uma série de derrapagens e rugidos de motor. Pensei logo num racha ali pela Avenida Mauá, o que não é tão incomum.
Chegando na esquina da Siqueira Campos com a João Manoel, vejo na minha frente um carroceiro parado no semáforo. Atrás dele, um grande carro metálico com um motorista esbravejando pela janela. Ouço o condutor da carroça gritando “quer matar meu cavalo, seu desgraçado?” e sigo caminhando, achando se tratar de uma animosidade trivial.
Entretanto, ao sinal verde, o papeleiro de boné brande o relho com força, vira à esquerda e começa a chamar o cara do automóvel para o pau. Claramente dominado pelo álcool, ele repete “vem então, felhadasputa!” umas cinco vezes. O careca engravatado grunhe alguma coisa e arranca a toda velocidade atrás.
Nessa hora, confesso que comecei a ter a tremedeira habitual que se sucede num princípio de briga. Um pouco pela testosterona primata que quer ver o sangue rolando, um pouco pelo cagaço que sempre diz que vai acabar sobrando pra mim. Sigo pela calçada em direção à garagem, prestando atenção a qualquer indício de armas de fogo ou objetos que possam me atingir.
Ainda balbuciando impropérios de todo grau, o carroceiro espera o carro se aproximar um tanto para um movimento totalmente inesperado. Tal qual um corsário em pleno alto mar, corta os barbantes que prendem algumas caixas de madeira, que vão caindo e se espatifando contra o asfalto uma a uma. O motorista tenta, em vão, desviar-se da carga, até que acaba cercado e é obrigado a dar ré no meio da rua para continuar a perseguição.
A última coisa que vi e ouvi foram o cavalo tomando a contramão seguinte e aquele eco: “vaaaaaaaaaamo, feadaspuuuuuuuu…”
Isso me fez lembrar que, há uns três anos atrás, nesse mesmo local, ao meio-dia, vi um homem negro fortíssimo, de torso nu, correndo contra o fluxo e arrancando retrovisores. Só parou quando tentou atravessar um ônibus de frente.
Cara, vi essa notícia e achei que era um típico exemplo de jornalismo buick:
http://www.kstp.com/article/stories/S16799.html?cat=1
abraço.
Gostei especialmente do microconto no último parágrafo.
torso nu?
ai don, cê é bixa, mano?