É preciso escapar dessa armadilha, se o que se quer é o inopinado. É preciso silenciar, para ouvir o rumor do mundo. Diante da sua gravidade e de seus homens tão ativos e enérgicos, a humildade para se calar, não emitir juízos, apenas observar em doce passividade, dedicando-se ao detalhe banal com o mesmo espanto da criança diante de um gato pela primeira vez. Mas enxergar a coisa sem importância requer exercício contínuo e entrega. É preciso saber esperar o momento de distração dessa máquina de produzir significações a que chamamos pensamento lógico, esperar o momento em que nada significa absolutamente nada, quando tudo é sonolência improdutiva, quando a realidade se fende por um segundo, e então algo lá atrás se move, algo vibra, e ali está todo o universo, vivo, palpitante.
Amilcar Bettega Barbosa, um dos melhores escritores brasileiros da atualidade, estréia coluna no Terra Magazine. Será quinzenal, e provavelmente imperdível para quem já aprovou a prosa do rapaz.
Por outro lado, Márcio Alemão é bem melhor como crítico gastronômico do que fazendo isso. Mas confio no Bob Fernandes, ao menos como grande repórter.