Assistindo a um filme francês ontem na P.F. Gastal, acho que consegui captar um pouco melhor o porquê de alguns expedientes usados por artistas, escritores e pensadores daquele país.
“Michel Butor Mobile” é um documentário-ficção de Pierre Coulibeuf. Usa o personagem real, o escritor Michel Butor, em imagens e entrevistas feitas para apresentar não só um personagem, mas uma gama de relações que ele suscita a partir de suas idéias e da sua obra.
Apesar da projeção curta (pouco mais de uma hora), é de difícil digestão. Mesmo destituída de experimentalismos, a narrativa insiste na repetição de termos chave, que envolvem não somente imagens, mas também conceitos e palavras aparentemente sem sentido para o espectador estrangeiro.

Com o passar do tempo, no entanto, é incrível como se fica preso à figura do pacato senhor barbudo. A forma como ele se veste (sempre com um colete de caçador, com duas canetas fixadas no bolso da frente), sua capacidade de sempre responder de maneira diferente uma mesma pergunta e seu apreço pelos timbres das palavras beiram o comovente.
A câmera é praticamente estática, quase sempre focando de perto o rosto ou estancando em planos médios. Butor quase escreve um livro simplesmente com a sua presença; cabe ao diretor quebrar a harmonia com algumas intervenções irritantes, mas que acabam se justificando justamente por injetar um fator pitoresco na fala fluida do autor. As interrupções servem para que ele não conte simplesmente uma história, mas que o faça também revelando alguns meandros do seu processo criativo.
E é aqui que entram os fluxos de consciência, algo que comentei a respeito num post do Parada sobre Roland Barthes. Parece que grande parte dos franceses não se contenta (ou não consegue) falar sobre algum assunto sem tergiversar loucamente. É o exemplo clássico do intelectual que fala, fala e não chega a lugar algum. Algumas vezes, conseguem grandes acertos (como algumas passagens de “A Câmara Clara”). Mas será que vale a pena tanta conjectura para sublinhar umas quatro linhas?
De qualquer forma, me parece admirável, pelo menos no caso do Barthes, a facilidade de transpôr esses fluxos para o papel. E é o que Coulibeuf também consegue fazer no seu filme, apenas instigando o seu personagem a falar, falar e dar opiniões sobre temas abstratos (“ideologia”; “política”; “novo romance”). Proposta potencialmente enfadonha, mas que mostra-se bastante interessante quando se tem algo totalmente fora do assunto a se dizer.
No momento em que Butor começa a falar sobre a importância que dá ao som e à pronúncia das palavras, comecei a perceber o quanto isso fazia sentido. Foi a comprovação de algo que comecei a sentir logo no início: as legendas em espanhol eram praticamente a mesma coisa que saía da boca do senhor de cabelos grisalhos falando no seu idioma nativo. Nesse momento, ficou transparente na minha cabeça que absolutamente tudo era a mesma coisa, seja qual fosse o código ou como era apresentado.
Saindo da sessão, encontrei amparo nas minhas sensações e fiquei bastante satisfeito com a experiência e por ter me submetido a ela. Numa generalização barata, penso que na França se produz mais com a intenção de botar para fora do que de significar algo. Revirando a bagunça, sempre dá para encontrar algum brinde que vale a festa. E quando isso acontece, é bom guardá-lo como se fosse um troféu.
Tem um post antológico do Soares Silva sobre essa mania dos franceses. Acho que até saiu no livro.
hey, you’re (becoming a) homo!
Sonhei que tu tinha comentado “vai tomá no teu cuuuuuuu” e acordei rindo muito.