Realmente, fazia tempo que eu não ficava tão triste quanto depois de ler isso aqui. Se você não tem um cadastro, talvez nem queira fazê-lo. É deprimente.
Prateleiras de política, filosofia, economia, clássicos: cuidado. Leitores desse nível precisam de um papo mais fundamentado, mais cabeça. São mais intelectuais e menos afetivos. Aqui a conversa precisa estar afiada para a paquera ter bons resultados.
Não consigo rir. Sério. Não tem problema algum conhecer gente em livraria. Mas esse quadro “encontre um romance” e o “passo a passo da paquera” são as coisas mais deprimentes que eu já vi escritas num jornal de circulação desse porte.
E já tinha saído uma matéria parecida na Folha de São Paulo.
Cena:
Sujeito lendo um trecho de um livro sobre Lautréamont, sábado, três da tarde, na Cultura do Conjunto Nacional. Surge uma moça sorridente, linda como só as paulistas típicas sabem ser. O sujeito pensa que ela é da limpeza e vai saindo.
- Você fala francês? – ela pergunta, quase ofegante.
- Não, eu só estou admirando as letras do livro, parecem tão bonitas. – e faz uma cara de paciente de manicômio depois de uma dose de lítio.
- Ahn! Eu pensei que… – diz ela se encolhendo.
- Você fala francês? Ouvi dizer que na França as pessoas fazem amor o dia todo, umas com as outras – interrompe o sujeito, um fio de baba escorrendo pelo canto da boca.
Moça sai de fininho. Circundantes riem. Sujeito sai assoviando alguma canção mela-cueca do Charles Aznavour: Que c’est beau, c’est beau la vie.
Que coisa mais vulgar.
Corre o risco de se aderir em definitivo ao senso comum.
Ou o fato de ser publicado signifique que já esteja?
Tente ler o caderno cultural da folha de pernambuco e voce ver ate onde o jornalismo vai. =P
PS: antes que eu forget, teu blog é do caralho.
O jornalismo no nordeste, assim como toda uma gama de produtos e serviços, é inacreditável.
Maldição. Vou repetir o que já disse no blog do Gabriel. É BOM que livrarias sejam lugares onde pessoas fazem mais do que comprar livro. Se as lojas tiverem lucros com mais coisas os livros podem não encarecer.
Pensem bem: a Cultura, a Saraiva ou a Siciliano são piores como lojas de livro porque vendem CDs e DVDs? Não. Por que vendem café? Não. Por que são freqüentadas por gente que não é os dez feladuputa que lê livro? Por incrível que pareça, também não.
Este tipo de gente na livraria, gastando mais um pouco (por mínimo que seja) beneficia a nós, clientes habituais de livrarias.
Só objeto se comçarem a fazer show de sexo explícito no meio da loja. Algo pode espirrar na minha preciosa prateleira de Wordsworth Classics.
Cisco, ninguém duvida disso. O que desagrada é ver um ambiente outrora livre das “matérias de comportamento” sendo abordado com o mesmo tipo de baboseira pseudo-jornalista que se dedica às academias de musculação. Pelo menos no meu caso, foi o toque especial que me fez manifestar um desgosto genérico com esse tipo de vulgarização. A crítica é com o TEOR do texto, não com a pauta em si.
Sim. Eu já falei isso pro Francisco, mas o FASCISMO MAROMBEIRO não permite a compreensão do que estamos discutindo, aqui. jrghs
Daniel, eu vejo ainda menos problema com isso. Quanto mais livrarias forem tratadas como lugares mais vulgares, comuns e mundanos, mais chance de ter gente por lá.
Deixe a gentalha se divertir entre as prateleiras, desde que a qualidade do que está NAS prateleiras continue de qualidade. Duvido que a Cultura vá piorar só porque eu vou esbarrar em patricinhas ao invés de patrícios na estante de ficção estrangeira.
(Eu não sei de onde o Bruno decidiu que eu sou marombeiro…)
Estive há quinze dias atrás na Cultura de Porto Alegre e ela é pobre, pobre, pobre de marré, marré, marré. A Saraiva e a Siciliano (em qualquer cidade do país) vivem embaixo de viadutos há anos. Objetivamente, são livrarias ou ruins ou medíocres.
Agora, além de ruins, estão cheias de gente que acha que aquilo é point de pegação, um posto de gasolina com verniz.
Acredito que acontecerá com essas livrarias o que aconteceu com a indústria da música: No afã de conquistar mais público – qualquer que seja – deixaram de atender bem os caras que realmente gostam de música e que realmente compravam CDs, às centenas, e que agora os baixam de P2Ps.
Depois, quando essa “moda” de freqüentar livrarias passar, estarão perdidos os dois públicos, como aconteceu com as gravadoras.
Eu se fosse dentista, por exemplo, não entenderia o porquê de uma dentária especializada em equipamentos pra próteses e quetais, passasse a vender, sei lá, balões de festas de criança e chicletes cariogênicos, para aproximar um futuro público alvo da casa.
Livraria que vende cafézinho e badulaque é lugar pra mané e, agora, titias casodoiras…
Casadoiras.
Minha visão de mundo é um pouco diferente da tua, Francisco. Uma livraria é um mundo meio “sagrado” pra mim, e a idéia receber da sociedade o mesmo tratamento dado a uma boate ou a uma academia esportiva da moda me incomoda. É uma posição totalmente conservadora, mas foda-se. Não me importo que um texto de jornal diga que “o melhor lugar pra encontrar um gatinho é nas imediações dos aparelhos de supino, seus frequentadores têm peitorais mais avantajados”, mas me incomoda ler que “nas prateleiras de clássicos você encontra pessoas pouco afetivas e intelectuais, fuja”.
Não é a idéia de que se possa procurar companhia numa livraria que me incomoda, isso é legal. Mas, ãn, enfim… acho que essa matéria apenas incorporou um aspecto geral do mundo de hoje que me revolta. Acho que todo mundo, inclusive a “gentalha”, deveria frequentar o máximo possível as livrarias, seja pra comprar, folhear livros, comer tortas ou paquerar. Mas matérias como a que saiu na Folha de SP e na Zero Hora simplesmente empobrecem o mundo, a dignidade da raça humana e o espírito das pessoas. Tou falando da LINGUAGEM usada. Tou falando da redução de todo um espectro de cultura e comportamentos humanos a um denominador comum cujos valores mais celebrados me desagradam. É isso.
É que tu prefere arrumar paquera em sauna gay, judeu veado!
Exato.
hehehe
Eu quis dizer “exato” p/ o comentário do Daniel Galera, e não pra esse aí em cima. Ficou engraçado. Enfim.
Exato.
Komiku, vou ter que dar de Hermano, agora:
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criado: 06/07/2001
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“Rastreando a rota para 200-221-148-193.internetturboadsl.speeduol.com.br [200.22
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Rastreamento concluído.”
É um ADSL de São Paulo.
Mas lá na Cultura do Bourbon tem uma loira igual a Titney Spears. Comprei o “Na faixa de Gaza”, do Joe Sacco, com ela. E um disco do Napalm Death também.
Entre um suspiro e outro, me senti feliz por não estar sendo atendido por um gordo morfético cheirando a túmulo egípcio com traças saindo das orelhas. Mas, enfim, eu sou um maldito pequeno-burguês que gosta de conforto e que ainda vai fundar uma ONG para proteger loiras peitudas.
W
Volto a afirmar que, pra mim, o cerne da questão é só o que destaquei e negriteei. Loiras peitudas, xaveco no lixo, livros mais baratos, estou apoiando.
Concordo com o Galera: é bom que todo mundo vá nas livrarias.
E acho barbaridade classificar de todo mundo q não gosta de livros de “gentalha”… tem muito intelectual que leu milhões de livros, escreve bem pra caramba e é grosso, tosco, não sabe se relacionar com outras pessoas, não tem compaixão ou sequer algum tipo de liberdade, conhece toda a obra do fulano de tal mas não é capaz de resolver seus problemas particulares ou de ajudar os outros.
Sem ironia, talvez algumas “pessoas da academia” sejam mais gentis do que alguns “ratos de livrarias” enfurnados em sua própria neurose intelectual, perdidos no seu próprio mundo egocêntrico.
Qualquer sacralização é sempre perigosa e o fato de muita gente tratar o livro num pedestal afasta quem poderia se aproximar. Os professores que mais me estimularam a ler e a escrever foram os que trataram os livros como parcerias e não como objetos de culto. Isso é pra colecionador e colecionar e ler são coisas diferentes.
Nada disso retira o absurdo do “quadrinho” já citado e detonado… a matéria foi ridícula mesmo… mas às vezes é bom ridicularizar algo que a gente curte só pra ver como a gente vai reagir, se vamos ficar todos putos da cara ou aceitar que o mundo tem zilhões de ponto de vista e o nosso é só mais um.
Entendo o que tu quer dizer com o perigo da sacralização, Mini, mas há algo em mim que me impede de vulgarizar os livros. Pra mim eles estão em pedestais, sim, e quero que fiquem lá. Desde pequeno, os livros mais grossos que estavam nas mais altas prateleiras me fascinavam lá do alto de seu pedestal, e era justamente por isso que eu queria pegar eles e ler, saber que tipo de mistério ou conhecimento ou diversão tinha ali dentro. Até hoje eu guardo resquícios dessa imagem do livro como algo que não é banal e merece respeito. Não igualo os livros a CDs, por exemplo. Eles são meus parceiros, sim, E TAMBÉM ficam numa espécie de pedestal. Adoro professores que glorificam livros. Que ficam visivelmente emocionados ao brandir um livro para a turma, um livro que idolatram. Ver um livro num pedestal apenas multiplica minha ansiedade por ter acesso a ele.
É claro que há zilhões de ponto de vista e eu já aprendi que se manifestar com muito entusiamo a favor ou contra um deles pode trazer incomodação infinita, mas tinha alguma coisa nessa matéria que me tirou do sério e eu não consegui ficar quieto.
Me sinto como o Robert Crumb reclamando da experiência pavorosa que foi participar de uma cerimônia do Oscar. Ele desenhou uma magnífica historia em quadrinhos autobiográfica sobre isso.
Mini, a matéria concorda com a sua opinião: Cuidado com gente que lê clássicos, eles podem ser perigosos.
E, sim, seguindo a reciprocidade inaugurada pelos barbudinhos do Planalto, quem não gosta de clássicos é gentalha. Quem não gosta de livros é gentalha ao quadrado.
E, sim, ser grosseiro, às vezes, economiza um tempo do caramba. Tempo que qualquer sujeito não resolvido, sem compaixão, péssimo em relacionamentos, rato de livraria, precisa economizar pra poder ler clássicos, esses perigosos objetos sagrados, cuidadosamente transmitidos de geração a geração séculos a fio por uma minoria de gente parva, ignominiosa e cheia de rancor.
Queria ver o que diria um “baladeiro” se começassem a vender discos de pagode dentro da sua dançateria preferida (e, paulatinamente, pagodeiros começassem a freqüentar a casa).
Daniel, esse fetichismo está entre perigoso e algo ridículo. Tu devia saber disso melhor do que eu, porque livros estão na mesma categoria das leis e dos salsichas: menos impressionantes e desejáveis quando a gente sabe como são feitos.
(Eu não sei como se fazem salsichas. Não me contem. Eu gosto de cachorro-quente e vou continuar assim.)
entristece mesmo quando vemos o mercado da carne querer dominar o território do mercado da mente. pode ser preconceito, pode ser medo de ver algo tão estimado ser descaracterizado, enfim, pode ser um monte de coisas, eu realmente não consigo aceitar isso.
Cisco, monte uma salsicharia literária. Provavelmente será um sucesso. :)
Discordo, Francisco. Apesar de eu saber que o universo todo é um arranjo de partículas subatômicas, no meu cotidiano eu prefiro manter doses saudáveis de sacralidade, me sinto melhor. Sacralidade, não fetichismo. Não elevo os livros a uma categoria superior pelo prazer fetichista de comprá-los (como admitiria fazer com CDs, por exemplo), mas pelo que eles significam pra mim.
Só não entendi porque minha visão sobre este objeto particular pode ser perigosa (posso imaginar que ela possa parecer ridícula pra muita gente, mas não perigosa…).
E a comparação de livros com salsichas me parece francamente… errada.
no fim das contas, o problema da matéria é estereotipagem e generalização equivocada. acho que é só isso.
No budismo tibetano, como o Mini certamente sabe, livros são cousa séria. Livretos com textos litúrgicos (sadhanas) não podem tocar o chão, não podem ser tratados com espécie alguma de desrespeito, não podem ser jogados fora sem toda uma parafernália de ações ritualísticas. Dentro de um templo, os livros com ensinamentos sagrados sempre recebem um lugar de destaque. Por quê? Em resumo, porque representam a sabedoria da mente iluminada.
Os praticantes budistas sabem que aqueles livros, que aquelas sadhanas, são apenas papel com tinta, tão impermanentes quanto todo o resto. Ainda assim, a reverência é mantida; é uma escolha consciente, uma abertura ao sagrado. Um dos motivos para se manter um comportamento adequado nos templos é a presença dos textos, que é a presença da natureza de Buda, que por sua vez é a natureza de tudo que há. Ainda assim, um templo é apenas uma construção como outra qualquer.
Para muitas pessoas, entre as quais me incluo, diversos outros tipos de livros inspiram a mesma reverência, assim como os locais onde são armazenados ou vendidos (como vendidos são sadhanas e ensinamentos, nada de errado com isso). São apenas pedaços de papel com tinta, e podem ser usados de qualquer forma. Quem escolhe reverenciá-los reconhece neles a presença do espírito humano, do esforço intelectual de nossa espécie, de nossa nobreza última. Livros são sadhanas; bibliotecas e livrarias são templos.
É por isso que essa tal matéria irrita, a meu ver, mesmo que permitir irritar-se não seja uma escolha muito adequada a um cavalheiro.
De resto, creio que viver sem estar aberto para o sagrado elimina qualquer possibilidade de compaixão, o que por sua vez destrói a chance de uma compreensão transcendente da natureza das cousas.
Talvez eu possa dizer essas mesmas coisas sobre academias de ginástica, mas no momento não me sinto particularmente inclinado a isso ;-)
vou imprimir essa lista de comentários e ler em alguma livraria por aí, com a braguilha aberta.
Láudano, não quis dizer que quem lê clássico É assim, mas que TAMBÉM tem gente que lê clássico e é como a reportagem diz. E tem gente que lê e não é.
Quanto à questão do baladeiro, ela não é teórica. Já vi acontecer muito isso não apenas em clubs eletrônicos, mas em lugares indie. Aquela mentalidade de que “se começa a popularizar, perde a graça”.
Geralmente as pessoas reclamam da “vulgarização”, mas na real o que move a reclamação é a “invasão do seu clubinho”. A vulgarização também ocorre e é pentelha, mas muitas vezes o que é chamado de vulgarização é simplesmente um aporte maior de público que, paradoxalmente, pode ajudar a manter vivo algum lance para que se possa aproveitar por mais tempo.
Felizmente hoje há opção: você pode optar por ter um show menor ou uma gravadora menor ou uma banda menor e trabalhar com um público restrito. Boa sorte. É possível, não é horrivel, você só vai ter que se virar de outra maneira para levar uma vida decente, viajar de vez em quando, pagar aluguel, contas, sustentar sua família.
Galera: respeito tua relação com os livros, sinceramente.
Mojo: tem toda a razão e concordo com tudo que tu colocou. Apenas que, como budistas, sabemos que se algum leigo coloca uma sadhana no chão, se compra a Istoé sobre budismo, não vamos tirar o cara pra mangolão ou gentalha. Afinal, a gente se conecta com o budismo das formas mais improváveis. Se eu não fosse publicitário, veja você, talvez não chegasse ao dharma. Foi uma colega minha publicitária que me levou ao Lama Samtem.
Mas, gente, não quero entrar numa discussão sem fim… os livros também são parte importantíssima da minha vida, fui leitor desde muito cedo e blablablá. Também achei o tal “quadrinho” da matéria lamentável.
Só me irrita (cada um se irrita com o que pode :-) ) são os clichês intelectuais: megalivraria=ruim/mau/capitalismo, pequenalivraira=bom/correto/etc.
E mais.. tendo voto vajraiana, eu deveria entrar numa academia como entro numa livraria, numa loja de CDs, num templo. Mas também é óbvio que não tenho essa realização.
Concordo basicamente com o Mini e o Mojo.
E e era isso. Acho que todos chegamos num consenso de que o que destaquei no post é o lamentável. O resto da discussão nem era a intenção, pelo menos a minha.