Bruno Galera

The Limits of Control

The Limits of Control é o mais novo filme do diretor Jim Jarmusch. Cada enquadramento é uma obra de arte. O diretor de fotografia é Christopher Doyle, que tem biografia e currículo muitíssimo interessantes. Fez também o 2046, de Wong Kar Wai, outro grande filme que fala mais pelas imagens do que pelo conjunto.

Video game é vida

Minha memória mais antiga de uma partida de video game remete aos meus 4, 5 anos. Eu, meu pai e meu irmão jogando Odyssey ². Mais precisamente, o famigerado jogo da tartaruga.

O passo seguinte foi um Phantom System. Um genérico do Nintendo Americano que permitia acesso a clássicos como o primeiro e insuperável Contra. Tinha um colega de escola em São Paulo que possuía jogos originais que incluiam esse, Bubble Bobble e Zelda. Nesse já me forçava a entender algum inglês, exercício que me levou mais tarde a frequentar bancas de aeroporto não só para esperar meu pai retornar de viagem, mas para adquirir uma Electronic Gaming Monthly de cinco meses atrás.

contra

Facehuggers e um coração de alien: vitória.

Lembro de colocar o despertador para tocar às 5 da manhã para poder jogar Double Dragon 2 por duas horas antes de ir para a escola. Lembro do dia em que estabeleci o recorde de oito horas seguidas jogando ao tentar terminar Contra sem o código de 30 vidas. Lembro que alguns jogos não faziam absolutamente nenhum sentido e eram praticamente impossíveis: Turtles, Predator e o lendário Iron Sword. Naquela época, era comum levar DOIS ANOS para chegar até o fim de algum jogo ou simplesmente desistir. Não havia acesso a guias, dicas ou códigos mirabolantes com a facilidade que se tem hoje (apesar do código da Konami, eterno).

O Nintendo durou muito tempo, ainda. Mas a transição para os jogos de computador começou com o primeiro PC: um 286 AT com tela colorida, 33Mhz de clock, 512KB de memória RAM e 20MB de disco rígido. Um luxo lá pelo ano de 1990. Com isso, dava para rodar Golden Axe numa lentidão absurda e outros jogos adquiridos com o pirateiro oficial da Vasco da Gama, gentilmente apelidado de O Picareta. Forneceu matéria-prima até o advento do CD, quando alguns jogos começaram a pedir 30 ou mais disquetes e mídia virgem era um troço absolutamente impensável, quanto mais um gravador.

Dom Quixote: não li e dispenso

Dom Quixote: não li e dispenso

Houve uma dupla de jogos com mais profundidade narrativa que posso tranquilamente definir como marcos. O primeiro, evidentemente, foi Secret of Monkey Island 2. Foram meses, anos de imersão na melhor história já criada para qualquer video game. Quem jogou até hoje troca referências no dia-a-dia lembrando diálogos épicos ou passagens absurdas. Marco cultural é pouco, então fica bastante difícil explicar para quem não esteve lá. Alguns citam Pequeno Príncipe, O Apanhador No Campo de Centeio ou Feliz Ano Velho como obras chave para a adolescência. Se eu tivesse que responder um questionário, seria MONKEY DOIS, em CAPS LOCK, para desespero de professores de literatura.

Eu não teria medo disso hoje em dia

Eu não teria medo disso hoje em dia

Alone In The Dark. Pela primeira vez tinha medo profundo de jogar alguma coisa à noite, e pavor absoluto de entrar na biblioteca onde se podiam pegar livros citando O Mito de Chtulhu enquanto se fugia de um monstro desgraçado NO ESCURO. A coisa era realmente encagaçante e foi vergonhosamente apropriada no primeiro jogo da série Resident Evil.

Hoje me pego jogando Guitar Hero na sala e penso nisso tudo. Video game virou para mim muito mais um lazer do que uma experiência religiosa. Mas a carga do passado estará sempre presente e inevitavelmente voltará em textos nostálgicos como esse.

Alguma arte

Olafur Eliasson e seu "One-Way-Colour Tunnel"

Olafur Eliasson e seu "One-Way-Colour Tunnel"

O Douglas Dickel anda publicando referências a uns artistas bastante interessantes. Dependendo da relação, fui lembrando de alguns semelhantes e sugerindo nomes. Robert Smithson foi um. Também Paulo Vivacqua e Olafur Eliasson.

Pensando numa forma de organizar e expandir isso e aproveitando a proximidade da Bienal do Mercosul, tive a idéia de listar o que já pude conferir ao vivo e, naturalmente, o que considero que vale a pena ir atrás. A lista estará no delicious, e pretendo atualizá-la regularmente.

Pelo menos ele nunca caminhou

Aos poucos a corrida vai virando parte inseparável do meu dia-a-dia.

No início, apenas uma alternativa à realidade indesejável que não me permite mais nadar. Meu ombro direito sai do lugar com frequência, não permitindo que eu faça qualquer esforço na piscina.

Fiz uns três meses de esteira e saí às ruas. A preparação foi fundamental, e a compra de um tênis adequado me mostrou a diferença que faz um simples calçado. Mais nenhuma dor ou incômodo que não seja aquela sensação de presença dos músculos que só uma boa sessão de exercícios físicos pode proporcionar.

Na primeira prova que me inscrevi, o objetivo era completar o percurso. Ponto. Agora, em vias de me alistar para meu primeiro percurso de dez quilômetros, consigo perceber o quanto evoluí em pouco mais de seis meses de prática.

É gratificante melhorar tempos, superar uns metros a mais ou perceber que a respiração não é mais a de um desesperado em fuga. Cada treino é completamente diferente, e poder variar os cenários em calçadas, parques ou avenidas bloqueadas faz da corrida de rua uma experiência sempre nova e muito simples.

Se sinto uma agitação, já conheço o sinal: troco de roupa, calço os tênis e saio trotando sem saber muito bem para onde estou indo.  Não existe dúvida ou certeza alguma, só uma necessidade incontornável de dar o maior número de passadas no menor tempo possível.

Um livro do escritor japonês e ultra maratonista Haruki Murakami me incentivou ainda mais a levar a corrida a sério. Aos 33 anos (bem mais tarde do que eu), começou a correr e nunca mais parou. Nessa seleção de artigos curtos, descreve a rotina sob a óptica de um corredor de longa distância, mas também a relação do esporte com sua literatura. A maioria dos críticos abominou a forma e o conteúdo, mas o estilo franco e extremamente direto ecoa como ensinamento para os amadores e profissionais que se aventuram pelas pistas do mundo todo.

Pode soar ridículo, mas o lema publicitário Just Do It se aplica, e muito, a esse universo. Correr é uma necessidade, não precisa de filosofias e nem de um porquê. Esse vazio inevitável só pode gerar magnetismo ou repulsa, mas quem o abraça geralmente não se arrepende.

Falando em Praga

Praga vista de cima
Praga vista de cima

Praga é uma belíssima cidade com mais carga histórica do que qualquer um pode desejar. Os prédios, gigantescos e esplendorosos; a comida e a cerveja, sensacionais e bastante baratos, levando-se em conta a média européia. É um destino imperdível, ponto.

No primeiro dia, fazia um calor de Porto Alegre no seu auge: trinta e tantos, mas com uma umidade que te faz transpirar só de botar o pé na rua. Tudo ficou mais ameno depois de uma chuvarada que vimos se formar nos altos do imenso castelo e da catedral cravados no topo da cidade medieval.

Ficamos num excelente albergue bem no meio do centro histórico, a uma distância ridícula dos principais pontos de interesse turístico. Tudo coberto nos dois primeiros dias, com viajantes de todas as nacionalidades imagináveis apinhando as ruas, restaurantes e monumentos. Algumas vezes era dureza de se locomover, com tanta gente e flashes pipocando de todos os lados. A capital tcheca é atualmente um dos destinos mais visados da Europa. É quase impossível dobrar uma esquina sem ouvir alguém falando português.

Tivemos a sorte de encontrar uma exposição do Damien Hirst na não menos fabulosa galeria Rudolfinum. O prédio é inacreditável, com salas gigantescas e um silêncio aterrador. Sempre quis conferir de perto o trabalho do Hirst, que é ultra hypado atualmente e meio polêmico com seus bichos dentro de tanques de formol. A realidade superou minha expectativa, e saí extasiado. Considero que tenha sido uma das melhores coisas que já vi em arte contemporânea, junto com o Jorge Macchi (que esteve na Bienal do Mercosul).

Respeitei o legado de Kafka e não aceitei entrar em nenhum dos dois museus dedicados a ele. Cheguei a pisar na entrada de um deles, mas farejei o embuste em tempo hábil de não torrar minhas preciosas korunas em caça-níqueis do tipo. É sempre bom  estar atento às armadilhas para turistas: na dúvida, caminhe aleatoriamente e sem rumo por cinco horas seguidas e estará se divertindo o suficiente.

Primeiras impressoes de Dresden

Insisto em comparar, o tempo todo. Essa é uma mania terrível que tento evitar ao máximo. Filmes, artes plásticas, cidades: sempre tento achar um correspondente ou oposto completo, num exercício inconsciente de tentar me situar. Tentei fazer isso com Dresden desde que cheguei, mas por minha sorte tenho fracassado bastante.

Chutei mentalmente que a cidade devia ter uns 700 mil habitantes. Na verdade, sao um pouco mais de 500 mil, nessa que é a capital da província da Saxônia.

Uma monarquia forte reinou por aqui durante um bom tempo, o que é sentido em todos os prédios históricos absurdamente gigantescos, com seus motivos romanos. É humilhante lembrar de qualquer monumento considerado grande no seu país quando se está na Alemanha. Nem em Londres me lembro de ficar tao oprimido, isso que aqui nao tem um décimo da populacao de uma megalópole do tipo.

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Sobre a relacao habitantes versus cosmopolitismo, alguns dados observados até aqui mostram o quanto é triste comparar. Vindo do aeroporto (umas três vezes maior que o Salgado Filho, numa cidade três vezes menor), comecei a notar o cenário um pouco mais calmo do que lembrava quando estive por aqui em 2007.  Pensei maldicao, se quiser ter acesso a X e Y, serei obrigado a  ir a Berlim. Nao só o transporte é igual ou até superior (trem, bonde, ônibus, táxi), mas a oferta de restaurantes, lojas e tecnologia tem exatamente o mesmo nível impressionante. Um exemplo claro é a Saturn daqui, que só com eletrônicos é provavelmente o triplo de uma FNAC da vida. Gastei uma hora ontem só para olhar por cima meia dúzia de departamentos.

Na parte da calmaria, é covardia perceber que nenhum carro buzina. Nunca. E Dresden tem um transporte público notável  (24 euros um passe semanal  com direito a tudo, quantas vezes quiser). Mesmo assim, há  muitos carros, mas ninguém toca o horror. Ouvi um que outro magal passando, mas provavelmente era um dono de um Kebab que tem uma Lamborghini. Entendo.

Agora no verao,  tem anoitecido lá pelas 22h. Saímos ontem para sentar na beira do Elbe e tomar umas cervejas. Centenas de pessoas,  de todas as idades, atiradas em cima da grama fazendo o mesmo. Com câmeras caríssimas, bicicletas e tudo mais. O fato disso acontecer numa segunda-feira qualquer e, de absolutamente ninguém ter preocupacao alguma com sua integridade física por estar num descampado escuro, me deixa meio triste, até. Se eu estivesse na  mesma situacao perto da Redencao, provavelmente eu já me consideraria morto. E quando aqui se acha um lugar deserto que eventualmente poderia causar algum  desconforto, eis  que surge um velho de 90 anos usando duas bengalas esperando o bonde do outro lado, sem qualquer vestigio de estar sendo rondado por qualquer tipo de perigo. A tranquilidade oprime, ninguém se importa com nada.

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Nao me iludo que nada de terrível acontece por aqui. Há uns dias, um cara matou com 18 facadas uma mulher dentro dum tribunal. E essa regiao é bem conhecida por problemas com neonazistas e todo tipo de tensao etnica. Uma bomba pode explodir numa estacao e matar uma galera. Mas a chance disso acontecer é ínfima comparada  à possibilidade de te assaltarem com uma arma na cabeca em plena luz do dia em Porto Alegre (acho que isso já aconteceu com uns 15 amigos meus, fora conhecidos). Terror tem em toda parte, mas é  bem diferente quando é uma rotina que  precisamos integrar aos nossos dias.

Para terminar este relato de forma mais amena,  declaro que nada é mais genial do que o pfand cobrado em estabelecimentos de toda a Alemanha. Quer tomar uma cerveja num Biergarten ou supermercado? Pague o valor do copo, também. Isso te dá o direito de beber num recipiente decente e levá-lo para onde bem entender. Quer o dinheiro de volta? Coloque o copo no balcao e era isso. Coisas simples como essa têm de ser IMPOSTAS para funcionar, e nao debatidas com a populacao durante 16 anos. Algum preguicoso  ou mau caráter sempre vai achar que está tendo sua liberdade restringida, mas sao de pequenas leis e cedendo-se a favor dos outros que se faz uma sociedade um pouco mais educada.

Conexão germânica

Dresden

Sairei de férias, depois de quase dois anos.

Embarco para Dresden nesse sábado, dia 11, e volto só em agosto. Provavelmente aproveitarei bastante: além de reencontrar a Júlia, espero poder tomar muita cerveja não filtrada em garrafas de rolha, comer dönners por um euro e salsichas brancas, andar tranquilamente na rua à noite sem me preocupar com nada e, se possível, dar uma chegadinha honesta em Praga que, como diria Fernando Vanucci, é logo ali.

Diário do padre irlandês

Hoje participei da minha primeira prova de corrida desde que comecei, aos trancos e barrancos, meus treinos amadores em dias aleatórios da semana. Primeiro, três vezes por semana na esteira da academia. Depois, comprei um tênis decente e fui para a rua, experiência infinitamente superior em todos os sentidos.

Incentivado por um amigo, me inscrevi para o trajeto de 5km, e tratei de pôr em prática meu objetivo primordial: chegar vivo ao fim do percurso. Parado há mais de dois anos em atividades aeróbicas, todo cuidado é pouco.

O resultado foi melhor do que esperava. Cheguei dois minutos abaixo do tempo que fiz no meu último treino, provavelmente motivado pelo fato de que eu não me arrastava no asfalto como esperava. Ultrapassar um monte de gente deve ter algum efeito psicológico que me fez seguir adiante um pouco mais determinado que de costume.

O evento em si foi ótimo, com umas 3 mil pessoas participando. Entre diletantes como eu e o pessoal dedicado ao ofício, identifiquei a nova seita dos grupos de corrida. Não generalizo e até considero participar de um desses para melhorar meu treinamento, mas me parece por demais bizarro o Orkut vivo que se tornam esses agregados. Claramente alheios ao esporte em si, centenas estavam lá apenas para ser vistos por sabe-se lá quem. Não censuro quem encontra conforto social dessa maneira, só acho meio esquisito. Mas enfim, eu sou o narigudo que estava de bermuda até o joelho e com o número de participante colado na camiseta na altura do pescoço.

Jardins

Visão do topo de um dos 19 jardins de Haifa

Visão do topo de um dos 19 jardins de Haifa

Vi uma matéria no Jornal Hoje sobre a cidade de Haifa, em Israel. Sempre tive vontade de conhecer o país, mas os tais jardins Baha’i (19, no total) me deixaram muito impressionado. Essas milhares de plantas em camadas nos morros, com uma cidade enorme lá embaixo quase caindo dentro do mar, me parecem uma visão espetacular digna de ser conferida.

O site oficial tem mais informações. É um destino mega turistóide que ainda assim parece valer muito a pena.

Violento mocotó

Finalmente um tempo propício a uma boa terrina de mocotó.

Tive grande bloqueio com o prato até os dezoito anos, se não me engano. Comi na adolescência alguma versão desastrosa que me traumatizou por anos. Posso dizer hoje que é uma das minhas iguarias favoritas. Torço para a época onde os botecos ostentam placas orgulhosas com o famigerado anúncio HOJE TEM MOCOTÓ.

Por alguns anos, sempre me referi ao tradicionalíssimo VIOLENTO MOCOTÓ do Bar Naval, centenário estabelecimento localizado no Mercado Público de Porto Alegre. Trabalhando no Centro, era rica a temporada onde podia combinar com os amigos de traçar um prato fumegante a apenas algumas quadras de distância.

Depois, migrei para o fabuloso Bar e Restaurante Beverlly Hills II, que fica na esquina da Riachuelo com a Bento Martins. Também no Centro, o estabelecimento tem o diferencial de contar com um estupendo (e baratíssimo) buffet de comida caseira durante o resto da semana. Além da presença do proprietário NECO, que não escondia o orgulho de comercializar a deliciosa comida feita por sua mulher. Mais de uma vez fui lá sozinho e tive que apelar para o fiado, o que nunca representou problema para os desprevenidos que eram clientes assíduos do local.

Com a chuvarada de hoje e o frio aumentando, especulo onde deverei saborear o primeiro mocotó do ano. Morando na zona norte e sem carro, estou pensando em achar algo a pouca distância de uma caminhada. Não fracassarei.